29/12/2018 - 21h24

PT: uma derrota anunciada (parte II)

Por Flávio Lúcio

Enquanto o crescimento econômico e os ganhos salariais do período lulista os assalariados se mantiveram distantes das pregações moralistas da classe média e o lulismo foi capaz de resistir à primeira onda de ataques que começou ainda no final do primeiro governo (2005), com o “mensalão”, e se intensificaram ainda mais quando Lula conseguiu o feito político extraordinário de eleger a então desconhecida, com fama de durona e técnica competente, Dilma Rousseff, que teria uma Copa e uma Olimpíada pela frente para organizar.

As eleições de 2012 mostraram o modus operandi que seria aperfeiçoado dois anos depois com a Operação Lava Jato. Sessões de julgamento marcadas para as vésperas da eleição e transmitidas ao vivo não foram capazes de impedir importantes vitórias eleitorais do PT naquele ano, como a conquistada por Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo.

“Água mole em pedra dura…”, nos ensina o adágio popular. Sem fazer o necessário enfrentamento político contra os claros sinais de partidarismo do STF e da grande mídia corporativa − Globo à frente, − Dilma quase foi derrotada em 2014, tendo vencido pela estreita margem de 3,28, o que só aconteceu com a votação salvadora obtida no Nordeste (Lula tinha vencido as disputas anteriores por 20% de margem e a própria Dilma, em 2010, por 14%).

A votação obtida por Dilma em 2014 já era resultado da perda de influência entre os assalariados dos grandes centros, que em 2014 já era

verificável até mesmo no Nordeste, mas ainda sem muita expressão. 2016 ratificou essa tendência, que 2018 explicitou ainda mais, por exemplo, com o desempenho obtido por Jair Bolsonaro em algumas capitais nordestinas, incluindo João Pessoa.

O antipetismo ganhou a eleição

Nunca houve dúvida para mim a respeito que havia legitimidade na postulação do PT em lançar novamente candidatura própria à presidência em 2018. Desde que derrotou Leonel Brizola na eleição de 1989, o PT consolidou-se como o maior, mais influente, mais organizado e mais capilarizado partido da esquerda brasileira.

Além disso, as realizações dos governos Lula e Dilma tornaram o PT uma referência para os mais pobres que, até 2002, eram os mais reticentes em votar em Lula.

Mas, o caráter estratégico de 2018 exigia que o PT e Lula reconhecessem as dificuldades eleitorais e os perigos de se disputar uma eleição fundamental num ambiente envenenado pelo antipetismo − o antipetismo é a versão pós-Guerra Fria e, portanto, idiotizada do anticomunismo.

Numa entrevista à Rádio Tabajara antes do início da campanha, arrisquei-me na tentativa de projetar os cenários que tínhamos pela frente: Bolsonaro teria grandes dificuldades para se eleger em razão da sua rejeição, mas contra um candidato do PT ele passaria a ter chances reais. Sem Lula na disputa, como já era mais do que anunciando, o PT seria convertido no centro dos ataques. E Bolsonaro que já herdara esse espólio, que já tinha sido do PSDB, seria o grande beneficiário.

Acho que esse prognóstico acabou se confirmando nessa eleição. É óbvio que é difícil afirmar que se fosse um candidato não petista o resultado da eleição poderia ter sido diferente, mas me parece muito adequado racionar levando em conta que determinados discursos que atingiram fortemente Fernando Haddad teriam mais dificuldades de colar em um não-petista − o kit gay, por exemplo.

A campanha no segundo turno demonstrou isso, quando mesmo proeminentes antietistas anunciaram o voto em Haddad porque rejeitavam ainda mais Bolsonaro.

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