29/12/2018 - 11h34

Análise: Roma consegue integrar cotidiano e história

Por Flávio Lúcio

Acabei de ver Roma, filme do mexicano Afonso Quaron (que também dirigiu e escreveu Gravidade, lembram?), que já ganhou o Leão de Ouro de melhor filme no Festival de Veneza – Roma seria um dos favoritos a vencer em Cannes caso a organização do Festival não tivesse decidido banir filmes produzidos para a Netflix do Festival.

E o filme faz jus ao rebuliço causado desde o lançamento.

Roma é visceral em todos os sentidos, sobretudo porque o diretor e roteirista do filme, Afonso Quaron, conseguiu integrar o cotidiano de uma família de classe média a alguns dos grandes acontecimentos do Mexico no início dos anos 1970. Os personagens têm origem, um lugar social principalmente.

O mais impressionante desses acontecimentos é o massacre de 120 estudantes, que aconteceu no dia de Corpus Christi.

O massacre é narrado numa sequência única, num primeiro momento pela frieza distante da violência de rua das forças militares do Estado (Exército e Polícia) e depois pela ação de assassinos provenientes de grupos paramilitares, treinados pela CIA, que perseguem e matam friamente estudantes dentro de lojas, um deles assassinado na frente da protagonista do filme, a babá Cleo, interpretada pela atriz de origem indígena Yalitza Aparicio, cujo atuação quase silenciosa tem uma eloquência gritante, sobretudo em seus olhos que parecem tristes, mas são pura observação.

Cleo estava na loja ao lado dr sua patroa para comprar um berço para seu bebê prestes a nascer. Ela cuida das quatro crianças de uma família de classe média alta.

Como o filme é em parte auto-biográfico, trata-se de “Libo”, a quem Quaron dedica essa obra-prima. Na sequência seguinte, enquanto patroa e empregada tentavam voltar para casa, dezenas de corpos espalhados pelas ruas são mostrados.

As cenas do cotidiano, da casa onde o filme se desenrola e onde vivem os personagens ao bairro da cidade do Mexico que dá nome ao filme, são meticulosamente construídas, sobretudo na casa onde boa parte do filme se desenrola.

Quaron procurou trazer de volta as lembranças da cidade de sua infância, o movimento das ruas, das pessoas que passeiam por elas, a lazer oi a trabalho, e nesse esforço nos dá a impressão de que não há uma cena sequer em que cada detalhe de época não esteja presente.

Há também a tensão entre a exploração do trabalho, exposta a cada início da manhã até a noite, quando as empregadas da casa são as últimas a irem para a cama, sobretudo dos indigenas pelas famílias ricas do México, e o amor que em geral marcam as relações entre babás e as crianças cuidadas por elas, cortam o filme do começo ao fim.

Uma cena no inicio de Roma é marcante nesse sentido: enquanto as crianças brincam sobre o terraço da mansão onde as roupas são lavadas por outra empregada da casa, a câmera mostra ao fundo o mesmo acontecendo nos terraços das muitas, talvez dezenas de mansões vizinhas.

Uma das ultimas cenas do filme, que acontece numa praia, é de uma tensão abrasadora, que resume e dá o sentido a essa tensão que Quaron quis emprestar ao filme.

Vejam Roma porque vale a pena.

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