05/01/2019 - 09h23

Após vitória de João Azevedo, desafio de RC será administrar seu próprio tamanho

Por Flávio Lúcio

Ao lançar um nome tirado do bolso do seu colete, que nunca havia participado de uma única eleição como candidato e, até começar a campanha, era um desconhecido para a maior parte do eleitorado, e mesmo assim conseguir vencer todas as lideranças tradicionais (Cássio e José Maranhão) e emergentes (Luciano Cartaxo) da Paraíba, Ricardo Coutinho mostrou não apenas suas qualidades para “ler” a realidade e entender os movimentos de mudança ainda em curso, e assumir a liderança de desse movimento ao dar efetividade, pela força do discurso e de ações que passaram desde então a marcar sua trajetória, desde que assumiu a Prefeitura de João Pessoa, em 2004.

Ao mesmo tempo em que se diferenciava das lideranças tradicionais, como Cássio e Maranhão, Ricardo Coutinho pregou a necessidade de inaugurar um novo tempo nas relações entre Estado e sociedade civil, combatendo o patrimonialismo, a captura de grupos familiares do Estado, dos seus recursos e dos seus postos administrativos. Exemplo disso eram as acomodações pouco republicanas, que se resultavam em amplas maiorias parlamentares na Assembleia, inchavam os cofres públicos e escasseava os recursos para investimentos.

Isso marcou desde sempre o longo período que precedeu o governo de Ricardo Coutinho, mas mostrou-se capaz de assumir o papel que lhe cabia de renovador das práticas políticas e de defensor de uma nova cultura política.

Por duas vezes, RC apostou sua carreira ascendente num embate de altos riscos. A primeira delas foi na eleição de 2010, quando deixou a Prefeitura de João Pessoa para disputar o governo do estado contra o então governador e candidato à reeleição, José Maranhão, quando pouco acreditavam na viabilidade daquela pretensão.

A segunda foi no rompimento com Cássio, em 2014, que o deixou com uma base parlamentar de apenas seis deputados − a principal razão foi apontada acimas − e sob risco de ver suas contas desaprovadas. Numa situação que só aparentava grande fragilidade, RC partiu para o enfrentamento eleitoral contra aquele que havia sido seu principal aliado em 2010.

RC derrotara Maranhão. Havia chegado a vez de Cássio.

Quando 2014 começou e o rompimento da aliança de 2010 se prenunciava eram poucos os que não acreditavam num passeio de Cássio. Pelo contrário, casistas de todas as matizes tanto tratavam com desdém as possibilidades de RC como já tinham como favas contadas a vitória de cassista. Mas, a supremacia do tucano nas pesquisas era pura ilusão de ótica.

Poucos eram os que perceberam que, com todo o potencial eleitoral apontado, Cássio jamais conseguia superar a barreira dos 50% nas pesquisas, o que indicava um claro limite de crescimento.

E bastou RC começar a colocar em prática na campanha o discurso contra as “oligarquias”, contra a “velha política” que Cássio representava e que governo procurava superar, que o cenário eleitoral começou a mudar e a divisão real novamente se apresentou. Quando o resultado das urnas confirmou o segundo turno, em 2014, a vitória de RC estava novamente delineada.

Nos quatros anos que se seguiram, Ricardo Coutinho cavou a cova funda, na qual enterraria não apenas o cassismo − o maranhismo como força aglutinadora já estava morto e enterrado, − mas todos as lideranças vinculadas ou em aliança com os velhos grupos políticos, que ainda se mantem familiares.

O próprio Luciano Cartaxo acabou por colher o que plantou: ao não se mostrar apto no entendimento desse amplo processo de mudança na cultura política que a Paraíba vive, e tão bem captado por RC, especificamente quanto à necessidade de renovação, e não apenas de rostos, mas de práticas políticas e administrativas, Cartaxo corre um sério risco de, daqui a dois anos, ter sido apenas uma estrela cadente nos céus paraibanos.

A se consolidar agora como a única liderança estadual capaz de aglutinar grupos e lideranças locais em torno de um projeto de poder estadual, o ex-governador Ricardo Coutinho tem como grande desafio pela frente administrar o tamanho adquirido por ele próprio, mas, sobretudo, por seu grupo político, que tende a ter a partir de agora grande poder de atração, como já tiveram no passado Cássio e José Maranhão.

E João Azevedo, claro, será peça-chave nisso.

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