07/01/2019 - 12h20

“Pátria amada Brasil”: um slogan de governo para americano ver

Por Flávio Lúcio

O slogan do governo de Jair Bolsonaro “Pátria amada Brasil”, divulgado junto com a logomarca em que a bandeira brasileira substitui o sol se erguendo no horizonte tem a pretensão de emprestar um tom nacionalista à identidade visual do governo empossado, e dar seguimento a discurso já empregado na campanha, que misturava nacionalismo e religião: “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”.

Essa retórica nacionalista não é de todo estranha a um militar no poder, mas está em absoluta contradição tanto com os acenos servis de Bolsonaro em sua visita aos Estados Unidos antes de começar a campanha, quando o mesmo fez questão de bater continência ao hino e à bandeira americana.’ Não só isso. O atual presidente se incorpora ao coro de “USA! USA!” puxado pela plateia.

No “Regulamento de continências, sinais de respeito e honras militares”, disponível do site da Câmara dos Deputados, Alfredo Pinto Vieira de Mello, ex-Ministro da Justiça e Ministro da Guerra no governo de Epitácio Pessoa, e Ministro do Supremo Tribunal Federal, define continência militar como “sinal de respeito dado pelo militar individualmente a seus camaradas, – superiores, iguais ou subordinados, – às autoridades, à bandeira ou ao hino nacional“.

Além disso, ainda segundo Vieira de Mello, “continência parte sempre do menos graduado”.

Ou seja, não cabia a Bolsonaro fazer uso de um rito carregado de simbolismo que sempre deve partir de um militar hierarquicamente inferior, e mais ainda à bandeira de outro país em solo não brasileiro. Imaginem o que se diria se Lula, candidato à Presidência, fizesse o mesmo em visita à China ou à Cuba, ou mesmo aos EUA?

É bom lembrar que Bolsonaro não é mais militar há trinta anos. E se fosse seria ainda mais desonroso porque um militar, cuja função primária é defender a soberania nacional, estaria prestando continência a outra nação.

O ato se repetiu quando Bolsonaro, já eleito, recebeu o assessor de segurança nacional dos Estados Unidos, John Bolton, e prestou-lhe continência. Não tenho conhecimento se o presidente brasileiro recebe qualquer autoridade estrangeira da mesma maneira, mas os registros da imprensa indicam que não.

O problema é que os sinais de subserviência transcenderam o nível do simbólico, que em política tem uma eloquência que vai além das palavras ditas, e podem se materializar em ações práticas no novo governo, a depender das intenções já manifestadas pelo presidente e seU ministro das relações exteriores sobre a instalação de uma base militar norte-americana no Brasil.

Durante uma entrevista ao SBT na semana passada, Jair Bolsonaro disse sem se preocupar muito com a repercussão de suas palavras, que vê a aproximação com os EUA como estratégica, o que incluiria acordos econômicos e também “bélicos”.

Quando perguntado sobre se o motivo do presidente dos EUA, Donald Trump´, não ter visitado o Brasil era porque Bolsonaro teria de visitá-lo antes, a resposta não deixa dúvida sobre que a subserviência será a marca das relações com os norte-americanos: “Eu reconheço a minha posição, nós sabemos que o presidente Donald Trump é o homem mais poderoso do mundo, eu gostaria muito que nos visitasse.”

Mike Pompeo, secretário de Estado de Donald Trump, agradeceu a “oferta do presidente Jair Bolsonaro”.

Não é para menos. Na Segunda Guerra, Getúlio Vargas negociou a entrada do Brasil no conflito e autorizou a construção de uma base militar americana no Rio Grande do Norte depois que os americanos aceitaram transferir recursos e tecnologia para o Brasil implantar a indústria siderúrgica no país, a CSN.

Durante o governo militar de Ernesto Geisel, em razão da negativa dos Estados Unidos em transferir para o Brasil tecnologia nuclear, o Brasil se aproximou da Alemanha e um acordo celebrou a construção das usinas de Angra dos Reis.

Não por acaso, os próprios militares brasileiros se opuseram à posição do presidente. Segundo declarou à Reuters, uma fonte do alto comando das Forças Armadas já mandou um recado: “As Forças Armadas não concordam com isso. Temos que ver o que realmente o presidente falou sobre isso, mas os militares são contra”.

Enfim, se tem um discurso do governo Bolsonaro que pode ser encarado como a maior de todas as enganações está resumido em seu slogan, que diz amar o Brasil, mas se mostra incapaz de defender seus interesses.

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