11/01/2019 - 12h09

Disputa na Assembleia tem mais a ver com interesses de RC do que de JA

Por Flávio Lúcio

Foi inegável o “sacrifício” de Ricardo Coutinho para eleger João Azevedo governador da Paraíba. Quando permaneceu no governo, RC fez inegavelmente um movimento de alto risco para sua carreira: ficar sem mandato por, pelo menos, dois anos.

O cálculo de RC levava em conta que a alternativa para essa travessia pós-2018 era ser ministro de um futuro governo de esquerda.

No momento da decisão de permanecer no governo, a possibilidade de um nome da esquerda se eleger presidente − ou Ciro ou um nome do PT que Lula apontasse o dedo − era então uma grande possibilidade.

E RC era sem dúvida um nome forte para o ministério desse futuro governo.

Tanto pelo prestígio pessoal adquirido ao longo dos oito anos de governo, quanto por ser ele um dos poucos governadores nordestinos que não seria candidato à reeleição.

Esse projeto nacional naufragou com a aposta errada que o PSB fez, ao ajudar Lula a isolar Ciro Gomes, lançando, com apoio de Ricardo, o nome de Fernando Haddad à presidência.

Agora, pelo menos na projeção que faço no médio prazo, restou a RC ser candidato a prefeito de João Pessoa, em 2020, provavelmente uma passagem para o retorno ao governo, em 2022.

Além de RC ser considerado um candidato quase imbatível, o que diminuiria os riscos de uma nova derrota do PSB na capital, o ex-governador ficaria mais imune a isolamentos políticos e a esforços, que serão inevitáveis, que visarão provocar um racha entre ele o governador atual, João Azevedo.

Um obstáculo chamado Lígia

A imensa pedra colocada no caminho de RC, em 2018, que o obrigou ao sacrifício de permanecer no governo tendo ele uma eleição para o Senado praticamente assegurada, atendia pelo nome de Lígia Feliciano, a então vice-governadora − Lígia acabou por se candidatar à reeleição com o apoio do próprio Ricardo!

RC tinha sérias razões para ter dúvidas a respeito de entregar o governo nas mãos de Lígia Feliciano.

Havia o imenso risco, como de praxe, da vice-governadora, ao assumir o lugar de RC, não resistir “aos apelos dos eleitores e correligionários” e lançar-se na disputa − com a grande probabilidade de receber o apoio até da oposição, ansiosa por “espaços” na máquina estadual em ano de eleição.

Isso representava sem dúvida um sério risco à continuidade do “projeto” de RC. Não foi por outro motivo que o ex-governador acabou por optar pelo sacrifício da continuidade de uma carreira política fulgurante, de quem, sem pertencer a nenhuma família tradicional, começou como vereador, chegou à prefeitura da maior cidade paraibana, e, no passo seguinte, ao governo estadual. Hoje RC é uma das grandes lideranças nacionais da esquerda brasileira.

E essa renúncia à renúncia (ao projeto de ser candidato ao Senado, antes sonho de 10 entre 10 ex-governadores) acabou por ser mais um dado a ser acrescentado na biografia de Ricardo Coutinho, por sinal, muito bem explorado no discurso que se esforça desde sempre por apresentá-lo como um político não tradicional, o que o diferenciaria de outras lideranças tradicionais paraibanas como Cássio e Maranhão.

Por isso, João Azevedo deve tanto a Ricardo Coutinho. E, como assegura o jornalista Fabiano Gomes, já existe um acordo entre os dois para RC que assegura o apoio do atual governador ao ex.

Mas, como em política o tempo no exercício do poder aplaca esses nobres sentimentos, sobretudo os de gratidão, Ricardo cuida hoje de assegurar que quem presida a Assembleia no segundo biênio, quando começarão as definições para a eleição de 2022, seja alguém de sua estrita confiança: Cida Ramos.

Cida na presidência da Assembleia, deve calcular Ricardo, seria um meio para diminuir os riscos de uma ruptura com João Azevedo.

Portanto, essa não será uma eleição qualquer.

Além de teste decisivo para João Azevedo − em caso de derrota, o governador atual pode ter de reavaliar o modelo RC de relacionamento com a Assembleia,− será também para o futuro do ex-governador.

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