12/01/2019 - 13h16

Quando os estudantes entram em cena: em 1988, manifestações estudantis derrubaram aumento e criaram a Setusa

Por Flávio Lúcio

Em agosto de 1988,  eu ocupava a presidência do DCE da UFPB. O atual Prefeito, Luciano Cartaxo, era um dos diretores, assim como o secretário municipal da PMJP, Zennedy Bezerra. O atual Senador pelo Rio de Janeiro, Lindberg Farias, era do CA de Medicina. Vivíamos a crise econômica pós-Cruzado do governo Sarney. Os aumentos nos preços eram generalizados, a inflação começava a estourar.

Quase todos os meses, o prefeito de João Pessoa à época, Carneiro Arnaud, autorizava aumentos no preço das tarifas de transporte público.

O ex-deputado Carlos Batinga, que foi até o ano passado Secretário de Mobilidade Urbana, era o Superintende de Transporte Públicos. Era ele quem presidia o Conselho que decidia os percentuais dos aumentos. Como presidente do DCE, eu representava os estudantes da UFPB nas reuniões.

Em 15 de agosto de 1988, a primeira manifestação contra o aumento nas passagens foi convocada pelas entidades estudantis de João Pessoa. Essa manifestação foi a primeira. O movimento cresceu e outras duas manifestações aconteceram nos dias seguintes.

Na terceira, 30 mil pessoas foram às ruas.

Depois de muito quebra-quebra, o governador de então, Tarcísio Burity, decretou intervenção na Prefeitura de João Pessoa, desfez o aumento, congelou o preço das passagens e, em seguida, anunciou a criação da SETUSA, um empresa pública de transporte na qual os estudantes fardados tinham direito a passe livre.

Foi uma grande vitória dos estudantes e do povo pessoense.

Para acessar o registro do DCE sobre esse movimento, que segue abaixo, clique aqui.

A PERIGOSA MEMÓRIA DAS LUTAS…

Estudantes botam pra quebrar

Num movimento começado pelos estudantes secundaristas e universitários, a Paraíba os viu irem para as ruas, enfrentar a polícia, levar mais de 30 mil pessoas para protestar no maior movimento popular que a história da Paraíba registrou: foram mais de 30 ônibus quebrados, vários incendiados, numa expressão viva de fúria que envolveu o povo nesses dias de protestos. O resultado foi a vitória. O Governo da Paraíba recuou, interviu na prefeitura, desmoralizou mais ainda o prefeito e congelou o preço das passagens.

15 de agosto – Reunião do conselho da STP (Superintendência de Transportes Públicos), onde foi homologado por sete votos a um, o aumento da tarifa para 44 cruzados. O DCE foi o único contra o aumento, entre os oito membros do Conselho. O presidente do DCE, Flávio Lúcio, foi expulso da reunião. Imediatamento, o DCE enviou um Telex ao prefeito Carneiro Arnaud exigindo a revisão do aumento. O prefeito fez ouvido de mercador.

16 de agosto – O DCE/UFPB, a FEPAC (Federação Paraibana das Associações de Comunidades) e a comissão Pró-UPES (União Pessoense dos Estudantes Secundaristas) realizam passeata de protesto até a sede da Prefeitura Municipal, exigindo uma audiência do prefeito Carneiro Arnaud, em resposta ao Telex. Carneiro não se encontrava na sede da prefeitura. Dois ônibus foram apedrejados. O presidente do Sindicato patronal, Abelardo Azevedo, joga a culpa dos apedrejamentos em João Xavier, diretor do DCE, Jaêmio Carneiro, do PV, e Vladimir Dantas, da FEPAC. Logo vê-se que as acusações são infundadas.

17 de agosto – O movimento ganha fôlego. Uma enorme passeata sai do Lyceu rumo à Prefeitura de João Pessoa, onde novamente o prefeito não é encontrado. Cresce a revolta popular. Muitos ônibus são apedrejados. O movimento é nacionalmente divulgado. Abelardo Azevedo é flagrado dando tiros para cima nas ruas.

18 de agosto – Pela manhã, ha uma grande investida nos rádios contra a liderança do movimento, taxada de oportunista e irresponsável. Até Dom José Matia Pires, no programa  Correio Debate, aconselha o povo a não engrossar os protestos radicalizados contra o aumento das passagens. Vãs tentativas. O trabalho de mobilização da UFPB e escolas permanece e cresce em adesão e simpatia. Contudo, prevê-se que haverá enfrentamentos com a polícia. E realmente a polícia aparece. Antes de começar a passeata pacífica, a polícia aparece com violência batendo e prendendo manifestantes entre os quais Zennedy Bezerra, diretor do DCE. Os manifestantes resistem. Observando ser incontível a disposição dos manifestantes, a polícia sede, e após negociação envolvendo as entidades do movimento, a passeata ganha as ruas. Na prefeitura, novamente o prefeito Carneiro Arnaud não é encontrado. Chegando próximo ao viaduto a passeata já envolve praticamente toda população presente, naquele momento dentro da cidade. A partir daí, a revolta popular é incontrolável. E quebra-quebras repetem-se de todos os lados repetem-se por todos os recantos da cidade. Preocupados, reúne-se o alto staff do governo do Estado. Burity tira da cartola uma proposta para contar a revolta popular: congelamento do preço da tarifa e a criação de uma empresa estatal de transportes públicos…

Manifestantes no Parque Solón de Lucena (Lagoa)

19 de agosto – A cidade amanhece sem transportes. Clima de feriado e ressaca. Às 10 hrs da noite, os ônibus voltam a circular com os preços congelados. Vitória não do governador, mas do movimento popular organizado. Vitória do povo de João Pessoa. Exemplo para futuros embates.
Fonte: DCE Presente – Jornal do Diretório dos Estudantes da UFPB – Agosto de 1988, nº 1.

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