16/01/2019 - 10h01

Uma cidade (e seus prefeitos) reféns dos empresários de transporte público

Por Flávio Lúcio

Como sempre, o último aumento na passagem dos transportes públicos de João Pessoa reacendeu o debate a respeito dos valores e critérios de correção, mas ninguém (nem situação nem oposição) tocou no principal: o esgotamento do modelo atual, concebido décadas atrás, e a necessidade de novos meios de transporte para uma cidade que, em breve, vai parar literalmente, se nada for feito.

Quem mora em João Pessoa e é usuário de ônibus sabe que nesse setor nada mudou no tratamento dado ao transporte público e às empresas que o monopolizam há décadas.

Como os usuários do transporte público são em geral pobres e assalariados − quem não quer viver esse inferno diário trata logo de comprar seu veículo − essas empresas seguem o padrão brasileiro de atendimento a esses “consumidores”.

São ônibus insuficientes colocados para transportar essa população que, sobretudo nos horários de pico, quando a maioria vai e volta do trabalho, é obrigada a fazer seus longos trajetos, normalmente em pé e em meio a violentos solavancos, porque os motoristas têm de correr para cumprir seus horários.

A imagem é recorrente, mas adequada para descrever a situação do povo pobre durante essas viagens: sardinhas em lata.

Enquanto o povo pessoense pena diariamente pagando por um serviço caro e de péssima qualidade, os empresários do setor continuam a enriquecer − e a reclamar, mania de 9 entre 10 empresários brasileiros.

As ruas se entopem e nada é feito

Enquanto isso, os veículos motorizados continuam a encher as ruas da cidade. Segundo dados do IBGE, mais que dobrou o número de automóveis registrados na capital paraibana em apenas 11 anos.

Em 2005, eram 93.778 automóveis circulando pelas ruas da cidade; em 2016, já eram 195.416, o que dá quase 102 mil a mais.

Em média, foram mais de 9.200 automóveis a mais, isso para uma população que, em 2018, ultrapassou os 800 mil habitantes.

Ou seja, já temos quase um automóvel para quatro habitantes e, mal comparando, é como se cada família pessoense tivesse um automóvel.

E se computarmos todos os tipos de veículos (ônibus, caminhões, caminhoneta, motos, etc.) João Pessoa tinha 355.132 em 2016.

O resultado são ruas entupidas, muita lentidão nos deslocamentos, o stress urbano crescendo, e a velha imagem de uma João Pessoa tranquila se esvaindo pelas v(e)ias da cidade.

E o que foi feito nas últimas décadas para enfrentar esse problema de maneira estrutural? Nada! Nenhuma alternativa de mudança, como metrô de superfície ou mesmo VLT, foi colocada em prática por parte da Prefeitura de João Pessoa e do Governo do Estado.

Os últimos prefeitos cuidaram de alargar vias, criar novos corredores, constriur viadutos. A única ação do atual prefeito, Luciano Cartaxo, limitou-se a criar corredores de ônibus e mudar trajetos de ruas.

Mesmo no Governo do Estado, a solução adotada tem sido a construção de viadutos, que resolvem apenas temporariamente os problemas de congestionamentos.

E mesmo quando foi prefeito, Ricardo Coutinho não planejou soluções de longo prazo. Apesar de propagandear que a construção dos viadutos que dão acesso à Mangabeira e ao Geisel foram as duas únicas intervenções que ajudaram na mobilidade urbana de João Pessoa nos últimos anos, o que é verdade, iniciativas como essas não aconteceram durante sua administração na PMJP. E entre 2005 e 2010 esses problemas já eram visíveis e nada foi feito.

No limite da ousadia, as duas administrações falaram em BRTs (Bus Rapid Transit), que são aqueles ônibus articulados que trafegam em vias exclusivas. Metrô de superfície e VLT (Veículos Leves sobre Trilhos) nem pensar!

O BRT pode porque atende aos interesses do monopólio das empresas que têm concessões públicas, mas também porque o poder público investiria grande volume de recursos para criar a infraestrutura necessária.

No caso do VLT e do Metrô de superfície, existe sempre o argumento de que são iniciativas de alto custo, mas o principal motivo é outro: eles trariam o inconveniente de acabar com o monopólio que torna toda a cidade refém dos empresários de transporte públicos.

E os prefeitos de João Pessoa, também.

PS 1. O BRT já é uma solução ultrapassada. A primeira experiência foi em Curitiba, na década de 1970. Os tempos mudaram.

PS 2. Amsterdã tem uma população semelhante a de João Pessoa, e o metrô da cidade começou a ser construído na década de 1970.

Comentários