17/01/2019 - 08h15

Filha de policiais relata o drama (dela e dos pais) de ter convivido com armas em casa

Por Flávio Lúcio

O relato abaixo, feito pelo Twitter, é da estudante Bianca Andrade, de Natal (RN), sobre a experiência de ter armas em casa.

Filha de pais policiais (o pai, da Polícia Rodoviária, a mãe, da Civil), Bianca narra situações de sua vida nas quais as armas estavam presentes.

O primeiro episódio foi um assalto em casa quando ela ainda estava na barriga da mãe. Durante a invasão, os assaltantes surpreenderam sua mãe
– seu pai estava de plantão nesse dia – e a imobilizaram. Depois de vasculharem a residência, os assaltantes descobriram tanta a arma
quanto a identidade policial de sua mãe. “E isso quase custou a vida dela (e a minha também né?).”

No segundo episódio ela narra como encontrou, ainda criança, a arma do pai que estava muito bem escondida. “Por mais que (a arma) seja bem guardada, é facilmente encontrada.”

No terceiro, um arrombamento do automóvel do pai que resultou no roubo de sua arma fucional, que os assaltantes encontraram dentro do carro. “E essa é a SEGUNDA arma legalizada nessa história que foi parar na mão de bandidos. Pra vocês verem que essas coisas acontecem e que não é bobagem quando falam que a bandidagem vai ficar mais armada.”

No quarto, Bianca narra o drama do pai, depressivo por conta da morte da esposa, que pede aos filhos para esconderem as partes da arma que ele ainda mantinha em
casa para evitar que cometesse suicídio. “Ele chamou a mim e ao meu irmão na sala pra conversar. Desmontou a arma e pediu que escondêssemos cada parte dela em algum lugar da casa, sem dizer a ele onde estava.”

https://twitter.com/biancandrade

“Cresci em um lar com duas armas”

“Sou filha de pai e mãe policiais. Cresci em um lar com duas armas. Vou contar a vocês minha experiência em relação a isso.

Meu pai era policial rodoviário federal. Minha mãe policial civil. Antes mesmo de eu nascer eles já exerciam tais funções então cresci com arma em casa.

A primeira história q vou contar é de pouco antes de eu nascer. Como todos sabem, PRF trabalha em escalas de 24h. De modos q certa noite, em agosto de

1990, meu pai estava de serviço e minha mãe estava sozinha em casa, grávida de quase 9 meses, qnd dois ladrões invadiram o apto.

O apto era ali em Ponta Negra, na encosta de um morro. A obra do cond ainda inacabada, mas eles haviam se mudado logo pq eu estava prestes a nascer. Eram os únicos moradores do condomínio até então. Eles acreditam q os ladrões observaram o prédio algum tempo antes d invadir

De modo q certamente não foi coincidência o assalto acontecer justamente no dia em q mamãe estava sozinha e meu pai de serviço. E se considerar q observavam a rotina antes da invasão, podemos ter certeza de q sabiam q papai era PRF pq ele sempre saia p trabalhar fardado

O q os bandidos com certeza não sabiam era que mamãe tb era policial. E isso quase custou a vida dela (e a minha também né?).

Entraram em casa e saíram recolhendo muitas coisas de certo valor. Alguns eletrodomésticos menores e novinhos em folha (recém casados), algum dinheiro

Enquanto vasculhavam a casa, encontraram no criado mudo de mamãe sua carteira policial e sua arma. AÍ O BICHO PEGOU. “Ela é polícia, ela é polícia!!!!!”

Minha mãe ficou desesperada. Foi jogada na cama por um deles enquanto ouvia gritos e xingamentos dos dois.

Nisso ela encontrou calma não sei onde e conversou com o ladrão q estava menos nervoso. “Eu estou grávida, minha filha vai nascer daqui a um mês, olha aqui,

vem ver o quartinho dela”. E levou os bandidos até o meu quarto. Mostrou meu berço a eles. Falou “eu sou polícia, ela não”

Um deles guardou a arma dela na cintura enquanto o outro dizia “deixa a dona, a gente conseguiu, vamo embora”.

E foram embora levando a arma funcional dela.

O fato de ela ter treinamento e experiência com bandidos não ajudou em nada.

Cresci nesse apartamento onde aconteceu tudo isso. Não me lembro a primeira vez q meus pais falaram sobre as armas comigo, mas foi algo q sempre ouvi deles. Não era pra chegar perto. Não era pra mexer. Se encontrasse alguma parte da arma em casa era pra chamar a mamãe ou o papai.

Mesmo assim, criança tem curiosidade. Principalmente com algo q é tão explicitamente proibido. Tenho lembranças d ficar procurando alguma arma no guarda roupa deles. Uma vez achei, lá em cima, na parte do guarda roupas onde se guardam os edredons e coisas pouco usadas

Era a arma de mamãe e estava desmontada. Ou algo assim. Pois lembro que vi duas partes. Acho que era onde colocava as munições. Enfim… Como sei que era a de mamãe? Tinha um adesivo da hello kitty, rs. A de papai tinha um adesivo do Botafogo

Fiquei ali olhando de longe, com muito muito muito medo de tocar nela. Não fiz nada e em encostei por que o terrorismo que eles faziam em relação a isso em casa era absurdo. Mas isso deixa claro o seguinte: por mais q seja bem guardada, é facilmente encontrada.

A segunda história q quero contar: certa vez meu pai saiu direto de um serviço para me buscar num show lá na Via Costeira. Era de manhã cedinho, ele sabendo q ia ter q me buscar, trocou de roupa no serviço e estava a paisana. Estacionou o carro, desceu pra me procurar…

Qnd voltamos pro carro… Sinais claros de arrombamento. Lembro do meu pai PUTAÇO procurando a arma em baixo do banco do motorista. Tinha sido levada. DEU UM CU DE BURRO DA PORRA. Ele teve q responder a processo administrativo justificando a perda da arma funcional

E essa é a SEGUNDA arma legalizada nessa história que foi parar na mão de bandidos. Pra vocês verem que essas coisas acontecem e que não é bobagem quando falam que a bandidagem vai ficar mais armada.

Como muitos aqui sabem, minha mãe morreu precocemente, aos 41 anos, dormindo. Infarto fulminante. Isso foi um trauma enorme pra toda a família. Meu pai ficou fora da casinha. Mesmo. Depressão. Abuso de álcool. Nunca mais foi o mesmo.

Depois da morte dela, ele passou a ter MUITOS episódios de alucinação. Talvez abuso de medicamentos e de alcool combinados. De modos que passou um looooongo período afastado das funções policiais. (pela junta médica)

Mas não recolheram a arma dele. Por isso, em alguns momentos, época de crise depressiva dele, eu dormia de porta trancada. Tinha muito medo do que ele poderia fazer e ter uma arma em casa não ajudava muito, sabe?

Um triste dia, quando a crise depressiva dele estava bem complicada, ele chamou a mim e ao meu irmão na sala pra conversar. Desmontou a arma e pediu que escondessemos cada parte dela em algum lugar da casa, sem dizer a ele onde estava. PENSE NUM TRAUMA QUE EU FIQUEI

Ao longo de 22 anos convivendo com armas em casa eu NUNCA vi elas sendo usadas pra evitar assaltos, defender a família ou algo positivo. Sempre as temi muitissimo e TODAS as vezes q vivemos assalto (2 vezes, fora aquela q mamãe estava grávida) meus pais FINGIAM Q NÃO TINHA ARMA

Um desses casos foi um arrastão ali no Baldo (ou um pouco antes, perto do Paço da Pátria). Estávamos no carro, a arma de papai em baixo do banco dele.

Mesmo assim, passaram a bolsa de mamãe sem questionar. Ouvi os dois depois dizendo q jamais usariam arma com os filhos por perto

Meus pais, policiais treinados acreditavam ser ARRISCADO DEMAIS reagir a um assalto mesmo estando ARMADOS. Sobretudo com os filhos por perto. “Imagina se uma bala atinge vocês, Deus me livre”, dizia minha mãe, também conhecida como uma das mulheres mais sensatas do planeta

Os armamentistas acreditam que uma arma os deixariam mais seguros. Bem, eu duvido. Tudo o que vivi me mostra o contrário e confirma os estudos e pesquisas amplamente divulgados sobre o tema.

Lamento q as coisas possam piorar para muitas famílias e as tragédias q podem acontecer

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