21/01/2019 - 09h36

Temer, Bolsonaro. O Brasil viverá 20 anos de crise?

Por Flávio Lúcio

Em abril de 2016, durante entrevista concedida à revista Carta Capital, Ciro Gomes fez uma previsão catastrófica para a sociedade brasileira caso o impeachment de Dilma Rousseff se confirmasse, o que aconteceria meses depois: “Se esse golpe for consumado, não vejo mais a possibilidade de um governo estável pelos próximos 20 anos.”

Esse foi, entre tantos, o mais certeiro prognóstico do ex-governador do Ceará, na realidade um apelo à razão dos brasileiros, sobretudo de sua elite econômica e política.

Dolorosamente, o que fazemos é acompanhar o quanto Ciro tinha razão, porque nenhuma ruptura institucional e democrática jamais deixa de cobrar seu preço, principalmente num país que já conta com uma sociedade civil já bastante ativa, ainda que carente de bastante amadurecimento.

Nos últimos dois anos, o governo de Michel Temer, incapacitado pela ausência de legitimidade, mas também por absoluta falta de condições morais e política, aprofundou a crise que continua a assombrar o país.

E os 20 dias de Jair Bolsonaro no exercício da Presidência, fruto do aventureirismo de um eleitorado descrente na política e ainda fortemente influenciado pelo tradicional messianismo político latino-americano, já aponta para meses de uma crise infindável, principalmente porque a grande imprensa já assumiu seu lado no outro lado da trincheira.

Como eu venho repetindo: a Globo não elege mais presidentes, mas seu ainda tem imensa capacidade para desestabilizá-lo.

E a razão não é está vinculada apenas ao confronto aberto do atual governo com alguns órgãos da grande imprensa, Globo e grupo Folha, sobretudo. Assim como percebeu desde o início do governo Temer, a Globo já sabe que o rabo-de-palha de Jair Bolsonaro e filhos é um verdadeiro rastilho de pólvora que leva ao Palácio do Planalto. A coisa é mais feia do que até agora se apresenta, e não pense que não.

Bolsonaro vai cair?

Quando a bomba Joeley Batista estourou no colo de Temer, muitos prognosticaram o fim inevitável do peemedebista e a quadrilha de indefectíveis corruptos que foi alçada ao poder, ajudada pelos que foram às ruas, bateram panelas e postaram desenfreadamente nas redes sociais para “combater a corrupção”.

Não foi bem assim. Temer tinha maioria suficiente no Congresso e no STF para impedir a abertura de investigações contra ele e contra poderosos aliados − Aécio Neves foi o mais notável exemplo − e assim foi feito.

A imprensa calou-se em seguida. As “instituições” cessaram seu “protagonismo”.

Michel Temer, que assumira a Presidência de joelhos, agora rastejava. E entregou tudo que poderia entregar até os últimos dias do seu governo. E aquele cuja prisão era tratada quase como um fato consumado assim que terminasse seu mandato, hoje vive em conveniente esquecimento.

A Globo e o MPF o esqueceram.

Talvez seja esse o traço comum entre os governos de Temer e Bolsonaro. Para os interesses que estão em jogo, interesses que se articulam no jogo geopolítico que Bolsonaro já entendeu e demonstrou ser o norte do seu governo, há uma lógica que perpassa as relações entre os governos e a sociedade, a lógica perversa e antinacional de que quanto mais crise melhor.

Assim, o prognóstico de Ciro Gomes citado logo no início do texto se realiza pelas vias mais indecifráveis.

Como depois das redes sociais não há mais como manter o controle da informação, e como não existem lideranças de direita que passem incólumes por qualquer investigação séria, pois todas elas, de alguma maneira, se beneficiaram e alimentaram suas carreiras num sistema político largamente marcado pela promiscuidade com as grandes empresas, as instituições do Estado e a imprensa cumprirão seu papel, enquanto o trabalho sujo será deixado com o Congresso. Em breve, Bolsonaro, vendo se esvair seus últimos traços de prestígio, estará de joelhos. E logo rastejará.

Enquanto isso, as instituições do país naufragam junto com sua economia. Os ódios, alguns ancestrais ligados à escravidão, continuarão a alimentar o jogo político em benefício de grupos que não têm e não querem ter qualquer compromisso com o futuro do país, com qualquer projeto de nação autônomo e fundado numa melhor distribuição de renda.

Esse é o condomínio do golpe. E está mais vivo do que nunca.

Comentários