31/01/2019 - 10h40

O ódio a Lula: os brasileiros estão morrendo como povo?

Por Flávio Lúcio

Das muitas maneiras como povo brasileiro foi descrito por grandes pensadores brasileiros, duas em especial ganharam notoriedade no debate acadêmico e deixaram de ser mencionadas apenas nos ambientes restritos da intelectualidade para, digamos assim, popularizarem-se.

A de Gilberto Freyre, segunda a qual somos um povo mestiço e marcado, cultural e geneticamente, pela ascendência africana, sobretudo aqui no Nordeste onde o Brasil nasceu.

E a de Sergio Buarque de Holanda, para quem somos um “povo cordial” − cordialidade aqui designada como expressão de ações que são orientadas pelo “coração”, pelo sentimento, e não pelo distanciamento frio que caracteriza as relações na urbe moderna.

A mestiçagem que nos marca como povo − uma particularidade bem brasileira que, por exemplo, os professores podem identificar quando olham para uma sala-de-aula cheia, − e que é o fio condutor da caracterização de Freyre, tem a intenção de reforçar a coesão social como o traço predominante das relações sociais no Brasil: a violência está presente, mas o que importa mesmo é a mistura.

A “cordialidade” buarqueana ainda é vista entre nós quando somos apresentados a alguém desconhecido e recebemos beijos no rosto − a às vezes até abraços, quando não somos tratados por “amado” por alguém que me vê pela primeira vez, − o que choca alguns europeus ou americanos, acostumados a manter um certo distanciamento, pelo menos até que se estabeleça alguma intimidade pessoal.

Não é incomum que isso se apresente até na relação de um servidor público que atende umcidadão em busca de algum serviço.

Isso é tratado entre nós como frieza e até falta de educação, mas tem mais a ver com um certo tipo particular de relação público-privado. Aqui, como sabemos bem, a distância entre um e outro é quase nula, quando não se misturam para se tornarem uma coisa só, e não apenas no âmbito do Estado: muitos sindicatos são tão propriedade dos seus dirigentes como muitas prefeituras são para as famílias de muitos prefeitos − o Judiciário trata de que maneira os recursos públicos com os tais “penduricalhos” que ajudam a engordar o contracheque dos magistrados para além do limite constitucional.

Fora desse ambiente, notem como são “cordiais”, nem cheias de “amabilidades”, as relações entre patrões e empregados, sobretudo no ambiente doméstico, para não citar a prática recorrente da escravização de trabalhadores no campo, e de estrangeiros latino-americanos em São Paulo.

Lula e a “cordialidade” brasileira

O modo como mais uma vez Lula foi tratado pela Justiça brasileira, quando lhe foi negada uma despedida de um dos irmãos mais queridos do ex-presidente, e as comemorações dos seus adversários políticos, é a expressão mais amarga e desumana do quanto estamos nos destruindo como povo.

Essa máquina de mentiras e ódios que continua em ação mesmo depois da eleição − agora talvez mais importante do que antes porque chegou a hora de mostrar porque elegeram Jair Bolsonaro, − é mais do que tudo uma máquina de moer sentimentos.

E de nos separar, impedindo qualquer diálogo, qualquer possibilidade de reconstruirmos as bases mínimas de uma identidade que nos permita, de novo, nos reconhecermos como um povo, se é que fomos em algum momento, porque esse reconhecimento só se deu pela violência popular, como aconteceu depois da Revolução Francesa que mostrou abriu o caminho para uma modernidade que incluísse o “povo” na Europa.

Lula não está preso sozinho. Do lado de fora se encontra um país tão aprisionado quanto ele pelo ódio e pela desesperança.

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