06/02/2019 - 11h16

A oposição começa a ganhar juízo ao escolher Raniery Paulino como líder

Por Flávio Lúcio

Até o final do ano passado, eu sempre repeti que, se Ricardo Coutinho pudesse escolher a oposição ao seu governo, escolheria exatamente aquela que lhe fazia oposição na Assembleia, nas Prefeituras e no Congresso, a começar por Cássio Cunha Lima.

Feito baratas tontas, membros proeminentes da oposição aparentemente agiam sem calcular o resultado de suas ações e discursos, vociferando impropriedades políticas e administrativas nos microfones da Assembleia e nos programas de rádio da Paraíba.

Um exemplo eloquente, entre tantos outros: a posição do Prefeito de Campina Grande, Romero Rodrigues,  que se opôs, no início do ano passado, sob falsos argumentos “técnicos” que acabaram desmoralizados com o tempo, ao fim do racionamento d’água que há meses infernizava a vida dos campinenses.

A posição de Romero Rodrigues, claro, foi convenientemente esquecida – como conveniente era a posição do prefeito e de muitos que o acompanharam no debate, que não sofriam a penúria da falta d’água por viverem em condomínios fartamente abastecidos. Mas, e os eleitores de Campina, esqueceram?

A nova oposição paraibana

Em menos de uma semana, a oposição ao governo João Azevedo na Assembleia já criou mais problemas ao governo do que foi capaz nos últimos oitos anos, incluídos aí o período em que Ricardo Marcelo presidiu o parlamento estadual e usou a Presidência da ALPB para fazer um oposicionismo irresponsável que foi, antes de tudo, pedagógico para que a população diferenciasse Ricardo Coutinho do cassismo, que fora, até abril de 2014, o aliado político mais importante do então governador.

No primeiro embate da nova legislatura, a oposição foi capaz de atrair um grupo numeroso de deputados situacionistas, compor uma acordo que assegurou aos seus deputados participação proporcional no primeiro biênio, e uma presença muito além de seu peso no segundo biênio, onde asseguraram e em cargos-chave e presença majoritária na mesa. E, mais importante: além de rachar o bloco situacionista, criou sérias desconfianças quanto à lealdade da base de apoio que o governador João Azevedo tem na Assembleia.

O barulho sobre o conveniente recesso de 15 dias nos trabalhos da assembleia, decretado logo após a divulgação de rumorosas suspeitas que procuram envolver o governo anterior na participação em desvios praticados pela Cruz Vermelha em outros estados.

O argumento: reformar o acesso à tribuna e à mesa da casa legislativa por conta das justas reclamações da deputada Cida Ramos, isso depois de meses em que a Assembleia chegou a mudar de lugar por conta de… reformas. Uma dúvida: a reforma para atender às necessidades de acesso a Cida Ramos não poderiam ser feitas durante a noite?

E a indicação por consenso de Raniery Paulino, MDB de Guarabira, como líder do bloco oposicionista, reforça ainda mais essa impressão. Raniery é um dos raros e bons quadros políticos que a Assembleia paraibana produziu nos últimos anos.

A maneira tranquila como Paulino argumenta e enfrenta os debate públicos rompe com o estilo verborrágico da oposição, até 2018 comandada pelo cassismo. Talvez isso mostre algo mais: um deslocamento de eixo geopolítico do estado, que passou sempre por Campina Grande e pelos Cunha Lima até 2018.

A consistência do deputado de Guarabira é também demonstrada pela trajetória de fidelidade ao seu partido, o PMDB, nunca colocada em dúvida. E isso é muito incomum na Paraíba, convenhamos.

Não há registro de que Raniery tenha traído candidatos do seu partido, mesmo quando candidatos sem chances de vitória se envolviam no pleito, como foi o caso de Vital do Rego Filho, candidato ao governo pelo PMDB, em 2014.

Em Guarabira, Vitalzinho obteve 19,98% dos votos, enquanto em Patos, cidade governada por peemedebistas – não era o caso de Guarabira, – esse percentual caiu para 11,37%; em todo o estado, o peemedebista obteve 5,22%.

E em 2018, Raniery Paulino eram uma das raras lideranças que mantiveram o apoio a José Maranhão. Registre-se: Maranhão estava tão sozinho que obrigado a abrir espaço na chapa majoritária indicando Roberto Paulino para uma das vagas ao Senado, mesmo que o pai de Raniery tenha penado numa campanha sem recursos.

Ou seja, Raniery Paulino foi talvez a única liderança de expressão que resistiu às tentações para se alinhar a um dos grupos que polarizaram as disputas políticas na Paraíba até o ano passado, sobretudo para aderir ao governismo, já que em Guarabira os Toscano se mantinham aliados ao cassismo.

Enfim, acredito que a oposição continua a acertar ao indicar Raniery Paulino como seu líder, o que significa que, com seu estilo, experiência e preparo, ele pode criar problemas nos debates públicos e na iniciativas parlamentares para João Azevedo.

Problemas que Ricardo Coutinho não teve.

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