13/02/2019 - 10h36

Um peso, várias medidas: como Ricardo Coutinho e Luciano Cartaxo são tratados pela imprensa da PB

Por Flávio Lúcio

Já comentamos aqui no blog os dois episódios envolvendo figuras-chave das administrações do ex-governador Ricardo Coutinho e do atual prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo, ambos os casos motivados por áudios gravados sem que os interlocutores tivessem conhecimento.

As diferenças entre os dois casos são tão óbvias, sobretudo quanto ao tratamento dado por parte da nossa imprensa, que eu não resisti em compará-los, como os possíveis leitores verão abaixo.

No caso que envolve Waldson Sousa e Gilberto Carneiro, trata-se de uma gravação de sete anos atrás (2012) na qual o empresário que gravou a conversa foi um dos convidados para ajudar com suas sugestões na elaboração de um termo de referência para uma licitação destinada à manutenção de equipamentos hospitalares.

Em razão do alto custo da licitação, o governo de então decidiu por não realizá-la. Quanto do erário público foi desviado? Nenhum centavo.

No caso que envolve assessores próximos a Luciano Cartaxo (Adalberto Fulgêncio e Diego Tavares), a conversa aconteceu há apenas dez meses. Nela, explicitamente são discutidas estratégias de arrecadação de recursos (para a campanha do Lucélio Cartaxo ao governo ou esses recursos teriam outras destinações?). Detalhe importante: está dito que, o que os dois faziam ali, o prefeito não apenas tinha conhecimento, como era em nome dele que agiam.

Além disso, também não está claro quem gravou o diálogo. Como apenas as vozes dos dois secretários são identificadas, não se pode afastar a hipótese, pelo conteúdo do que foi ali conversado, de ter sido um dos dois o autor da gravação. Se havia mais gente no local, provavelmente o gabinete do Secretário de Saúde do município, era alguém da estrita confiança, tanto de Adalberto Fulgêncio quanto de Diego Tavares.

A grande mídia paraibana tem lado?

O tratamento dado pela grande mídia estadual, no que foi seguida por muitos sites e blog, foi totalmente diferente nos dois casos.

No primeiro caso, até divulgação de matéria sobre o caso a ser exibida em canal concorrente foi feita (veja o que publicamos aqui no blog sobre a tal matéria da montanha que pariu um rato no Fantástico ).

O estardalhaço feito por muitos meios de comunicação tinha um tom de frenesi, que se assemelhava provavelmente ao que alguns empresários da comunicação da Paraíba tiveram no dia da prisão de Lula.

Em seguida, uma coincidência, por óbvio: o secretário Gilberto Carneiro foi instado por um juiz a responder com rapidez a alguns questionamentos sobre um fato ocorrido há sete anos, isso logo após o vazamento de um áudio que está sob a responsabilidade do Ministério Público.

Por qual razão ninguém sabe. E a resposta a essa dúvida nossa imprensa não procurou saber.

No caso do áudio da conversa entre secretários de Luciano Cartaxo, uma combinação clara e indiscutível para desviar recursos dos cofres públicos, indicando as formas e quem iria agir, a mídia paraibana se faz de desentendida e perdeu o interesse por gravações, onde se chega a mencionar até mesmo malas de dinheiro – ah, com Temer já tinha sido assim; com o filho de Bolsonaro, nem se fala.

Acostumados a jogar pedra em adversários políticos e acusá-lo de corrupção, os dois secretários sequer foram procurados para explicar os termos de uma combinação que deveria deixar alguns dos nossos moralistas e indignados jornalistas com as faces ruborizadas. Mas, não. Um nota de dez linhas foi suficiente para deixar tudo por isso mesmo.

Tão diligente em outros casos, o Ministério Público se apressou logo em dizer que não tinha “essa gravação”.

Vamos esperar que pelo menos uma investigação seja aberta. Os milhões de reais que as empresas mencionadas na gravação receberam da Prefeitura de João Pessoa são indícios suficientes para que não se dê crédito às explicação dos dois secretários de Luciano Cartaxo.

E isso deveria valer também para a nossa “combativa” imprensa.

Comentários