17/02/2019 - 09h00

Bohemian Rhapsody diverte, mas surpreendentemente soa conservador

Por Flávio Lúcio

Só agora pude ver Bohemian Rhapsody, o filme que conta a ascensão meteórica da banda Queen e do seu vocalista, Freddy Mercury, até a lendária apresentação no mega evento global Live Aid, um concerto com grandes nomes da música pop, realizado em julho de 1985 na Inglaterra e nos EUA e transmitido para todo o mundo.

O único defeito que eu consegui encontrar, fora algumas imprecisões sobre a história da banda, foi a centralidade que a película dá à vida pessoal de Mercury, que se assumiu gay depois de um casamento hétero mal sucedido. O que não surpreende em filmes do gênero.

E mesmo assim com uma evidente inibição: poucas cenas de beijos, em geral nada calientes, são mostradas. Se por um lado, isso evita chocar o público mais conservador, não guarda coerência com a vida sexual intensa que teve Freddy Mercury, que morreu em decorrência da AIDS no início dos anos 1990, nem com o discurso que colocaram em sua boca quando contou para seus colegas de banda que tinha a doença: “Não tenho tempo para ser a vítima deles [da mídia], o garoto-propagada da AIDS, uma história para prevenção. Não, eu decido quem eu sou.”

Ao contrário das inúmeras cenas de festas e bebedeiras que estão presentes desde o início do filme.

No mais, trata-se de um filme que homenageia a grande banda pop que foi Queen e os seus sucessos que ainda hoje cantarolamos.

Entre eles, Love of my life, canção que foi cantado a plenos pulmões, sob a regência do vocalista, por um impressionante coral de dezenas de milhares de vozes no Rock in Rio, quando o Queen visitou o Brasil pela primeira vezPara espanto e emoção do próprio Freddy Mercury, que no filme fez questão de mostrar o feito numa fita de VHS para a esposa quando retornou a Londres.

O filme também oferece um quadro dos meandros da indústria fonográfica. Uma discussão bem didática entre o dono da EMI e os membros da Queen, quando a banda começava a fazer sucesso, sobre a inclusão exatamente de Bohemian Rhapsody no disco em preparaçãopor conta da música ter mais de seis minutos, o que não se encaixava no padrão três minutos do mercado fonográfico.

Enfim, quem gosta do Queen e das performances no palco de Freddy Mercury, interpretado pelo ator Rami Malik, vai gostar do filme. Bohemian Rhapsody não é páreo para Roma na disputa do Óscar, mas é sempre bom considerar que um filme como Bohemian Rhapsody tem uma rebeldia individual na medida certa, ao contrário de Roma. Sobretudo nesses tempos onde o hegemonismo americano não admite fazer concessões a sua periferia.

E o México tem hoje um governo de esquerda. A conferir.

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