26/02/2019 - 18h21

Ricardo Coutinho está de volta e ensaia voos mais altos

Por Flávio Lúcio

Depois de quase dois meses em que quase não tratou de assuntos políticos na Paraíba, o ex-governador Ricardo Coutinho voltou ontem (25) a dar entrevistas.

Desde 1992 Ricardo Coutinho ocupa cargos públicos de maneira quase ininterrupta – apenas nos meses entre a renúncia à Prefeitura de João Pessoa, em abril de 2010, e a posse no cargo de governador da Paraíba, em janeiro de 2011, RC ficou longe de qualquer cargo eletivo.

Ele agora deve estar aproveitando para descansar e dedicar ao filho, como disse que faria na última entrevista concedida no cargo de governador, concedida à TV Master, o mesmo canal que o entrevistou ontem.

Trata-se, claro, de férias forçadas em razão das circunstâncias que o levaram a permanecer no governo e desistir de uma eleição quase certa para o Senado no ano passado.

Não tenho que dúvidas que Ricardo Coutinho gostaria de estar no Senado participando ativamente dos debates sobre os grandes temas que estão hoje na pauta nacional, onde ele poderia ser um fator de aglutinação da bancada de oposição ao governo Bolsonaro.

Reforma da Previdência e armamento

A escolha para a entrevista de ontem não poderia ter sido mais adequada por conta do ambiente político marcado por casos de violência de grande repercussão pública, e logo após o governo Bolsonaro ter finalmente apresentado ao Congresso o saco de maldades contra o trabalhador, que é sua proposta de Reforma da Previdência.

Sobre a reforma da previdência, RC foi direto ao ponto ao resumi-la como “desumana”. “Você imagina um motorista de ônibus ou um pedreiro trabalhar até os 65 anos ininterruptamente?”

Além do inevitável desgaste junto à categorias numerosas de trabalhadores braçais que serão fortemente atingidas pela reforma, RC identificou também o que ele chamou de “linhas de atrito” que a proposta de Jair Bolsonaro tende a produzir com poderosas categorias do serviço público, como juízes e procuradores, cujo poder de influência no Congresso é inquestionável, o que deixa muita margem para a dúvida se o governo conseguirá aprová-la.

No caso da violência, a posição do ex-governador se concentrou na crítica à liberação da posse de armas, anunciada por Bolsonaro logo no início do governo. Casos recentes de assassinatos por motivos banais, como foi o do taxista aqui em João Pessoa, reforçam a argumentação de RC.

“Se banalizou a violência extrema, a arma, o tiro, a eliminação. Isso não tá certo. É uma falta de respeito com a sociedade o estímulo ao armamento. É você jogar com os medos da população”, disse o ex-governador, colocando-se numa posição diametralmente oposta a do presidente ao defender a redução do número de armas em circulação.

RC demonstrou que o modelo de gestão por OS é vitorioso

Temas mais espinhosos foram tratados, como o das investigações contra a Cruz Vermelhar, a Organização Social que administra o Hospital de Traumas de João Pessoa.

RC não se pôs na defensiva e defendeu o modelo adotado para o Hospital pessoense, cujos avanços sob a administração da Cruz Vermelha são inegáveis. E os números comprovam isso.

A começar pelo de leitos internos, que saltaram de 138 para 331 – no caso de leitos  de UTI, eram 13 e agora são 35. Em 2011, 4 mil cirurgias eram realizadas por mês pelo hospital, enquanto em 2018, elas chegaram a 17 mil.

Ricardo Coutinho esses avanços atribui à implantação da gestão via Organização Social, que ofereceu muito mais dinamismo e flexibilidade para a implementação das mudanças que o Hospital de Trauma exigia.

Sobre os custos do hospital administrado pela Cruz Vermelha, estes são semelhantes aos do Hospital de Trauma de Campina Grande, que é administrado pelo Governo do Estado: R$ 12,8 milhões.

Enfim, RC está de volta. Mas, ao que parece, ficou claro que ninguém deve esperar que ele opine sobre os rumos do governo do aliado João Azevedo, pelo menos publicamente.

Além de conhecer por experiência própria o tamanho do desafio que é governar um estado com a complexidade da Paraíba, Coutinho sabe bem que qualquer opinião nesse campo servirá à máquina de intrigas, ansiosa por gerar um racha entre os dois para ter alguma chance de vitória no futuro.

E os planos de RC, ao que parece, não estão na Paraíba. O ex-governador já sonha com voos mais altos.

Comentários