07/03/2019 - 18h45

Ao sugerir tutela militar à democracia brasileira, Bolsonaro fala só em seu nome?

Por Flávio Lúcio

Talvez não tenha sido obra do acaso ou mesmo mais uma das tantas trapalhadas do atual presidente da República quando, durante a cerimônia de comemoração do aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais no Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro disse o que disse, a sugerir que as Forças Amadas tutelam a democracia brasileira estabelecendo seus limites

“A segunda missão será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia e a liberdade. E isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua  respectiva (sic) Forças Armadas assim o quer” (sic).

Claro que o discurso geraria, como gerou, muita polêmica. Mas, polemizar não era a intenção de Bolsonaro. Pelo menos nesse caso.

Trata-se evidentemente de um recado e de uma ameaça aos críticos e às crescentes manifestações da sociedade civil contra o seu governo, aos grandes meios de comunicação (Globo, Folha e Estadão), contra quem o presidente se bate publicamente desde antes de se eleger, e ao Congresso.

É bom não desconsiderar o contexto. O discurso acontece logo após o episódio em que o presidente divulgou imagens que, por óbvio, como não poderia deixar de ser, correram o mundo, deixando muitos dentro e fora do Brasil atônitos, não apenas com tamanha incompreensão sobre a importância do cargo que ocupa, mas com o mau, o grotesco gosto do presidente brasileiro.

Imagens que nada têm de representativas do carnaval e do povo brasileiro, apesar do paganismo da festa.

Uma questão de grande relevância é saber se Bolsonaro falou em seu próprio nome ou se esse é o pensamento dos militares que cada vez mais cercam a Presidência.

Ontem mesmo fez grande sucesso uma hastag no twitter defendendo o impeachment do presidente.

Um dos signatários do pedido de impeachment, Miguel Reale Jr., disse ter visto motivação para um novo pedido, agora pelo afastamento de Jair Bolsonaro, algo que, claro, ele não vai fazer.

Pelo menos até que fique claro que a condução de Bolsonaro dá ao governo ameace seriamente as “reformas”, principalmente a da Previdência, ansiadas pelos bancos.

Quanto mais acuado, Bolsonaro tende a apelar também mais para o autoritarismo como alternativa a sua permanência no cargo.

E o seu governo, que tem pouco mais de dois meses, quase já consumiu o portfólio político adquirido após as eleições, e o Brasil vê se esfumar as expectativas positivas, e mesmo condescendência, que todo início de governo produz entre os eleitores.

A última pesquisa que mediu a popularidade de Bolsonaro (CNT/MDA) constatou o que estava mais ou menos claro nas ruas e nas redes sociais, terreno preferido de Bolsonaro: o governo do atual presidente aprovado por apenas 38,9% da população.

Certamente, Bolsonaro perdeu mais alguns pontinhos depois da apresentação da reforma da Previdência e consolidada a visão das maldades que o proposta representa para os trabalhadores mais pobres e depois do carnaval.

Acho que os militares por enquanto apenas observam a evolução dos fatos. Pelo menos por enquanto − é bom observar a situação internacional, − acho que estejam disposto a entrarem em cena, como em 1964.

Talvez não precisem. O General Mourão continua a postos, e, paradoxalmente se comporta com uma alternativa ao elefante numa sala de cristais que até agora foi Jair Bolsonaro no governo.

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