18/03/2019 - 08h26

Operação da PF levou reitor da UFSC ao suicídio: Cancelier era inocente

Por Flávio Lúcio

Sob suspeita de chefiar uma quadrilha que “supostamente” desviara verbas dos cursos de Educação à Distância (EaD) da Universidade Federal de Santa Catarina, o reitor da instituição, Luiz Carlos Cancellier, foi preso pela Polícia Federal no dia 14 de setembro de 2017 depois que um pedido da delegada Érika Mialik Marena foi autorizado pela juíza federal Juliana Cassol.

Seguindo os métodos aprendidos na Lava Jato quando atuou na operação curitibana, a delegada Marena coordenava agora a Operação Ouvidos Moucos, e procurava estender seus tentáculos para as universidades federais.

A prisão de Cancelier mostrou uma sucessão de erros, que só e tornaram visíveis a ponto de serem criticados pela grande mídia em razão do desfecho trágico.

O primeiro deles é que o pedido de prisão de Cancelier foi justificado por conta de uma possível obstrução da investigação, sendo que Cancelier sequer sabia que  estava sendo investigado.

Como sempre, o estardalhaço da prisão para chamar a atenção da mídia foi desproporcional para um caso apoiado em frágeis suspeitas. 115 policiais fortemente armados saíram as ruas à caça de Cancellier e de mais seis professores da UFSC. Ao noticiar a prisão em seu site, a PF mencionou o “desvio de mais de R$ 80 milhões”.

Ao noticiar a prisão de Luiz Carlos Cancelier, a apresentadora do Bom Dia Brasil, em tom exaltado e com movimentos apressados de mãos: “É roubalheira pra tudo que é lado!” Isso antes de dizer que “os suspeitos teriam movimentado R$ 80 milhoes de reais”. A regra básica dos âncoras de telejornalismo: usar o verbo na condicional, ao mesmo tempo em que uivam o moralismo do fato consumado.

https://globoplay.globo.com/v/6147183/

Depois, a delegada Marena corrigiu o erro: os 80 milhões de reais na realidade era o total de recursos repassados pelo governo federal entre 2005 e 2015 para financiar a implantação e o oferecimento dos cursos à distância na UFSC. Sendo que Cancelier assumira o cargo de reitor só em 2016.

Esse não foi o único equívoco cometido naquele dia pela PF de Santa Catarina. Com formação superior e na condição de mero investigado, Cancelier foi levado a uma penitenciária como um preso comum, algemado e com os pés acorrentados.

Ao dar entrada na penitenciária, Cancelier foi obrigado a ficar nu para ser submetido a uma revista íntima. Depois de o obrigaram a vestir uniforme de presidiário, o reitor afastado da UFSC por obstrução da Justiça sem que soubesse estar sendo investigado, ficou preso por 30 horas em uma cela de segurança máxima, onde ficam os mais perigosos presos do sistema penitenciário de Santa Catarina.

As hienas não tardaram para aparecer. No dia da prisão do seu reitor, a comunidade da UFSC viu suas paredes pichadas: “ladrões devolvam os 80 milhões!” dizia uma delas. As redes sociais foram inundadas com condenações ao reitor e a universidade.

A cardiopata de Cancelier foi agravada durante aqueles quase dois dias, e o advogado de Carcelier conseguiu a revogação de sua prisão em despacho da juíza federal Marjôrie Cristina Freiberger, que registrou em seu despacho não ter a delegada do caso apresentado “fatos específicos dos quais se possa defluir a existência de ameaça à investigação e futuras inquirições.”

Mas, o portão para a tragédia se abrira de tal maneira que não foi mais possível voltar a fechá-lo. Duas semanas depois, Cancelier se jogou do sétimo andar do estacionamento de um shopping em Florianópolis. “A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade!!!”, registrou ele num último bilhete.

Último bilhete do reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancelier

Mas, essa história na termina com o suicídio de Cancelier.

Cancelier era inocente

Oito meses depois da prisão de Luiz Carlos Cancellier, a Polícia Federal divulga o relatório final das investigações da Operação Ouvidos Moucos e, para estarrecimento geral, não apresenta uma prova sequer contra o ex-reitor da UFSC.

Segundo matéria da Folha de São Paulo sobre o relatório: “Apesar das acusações de que estaria no comando de uma suposta quadrilha, o relatório da PF não apresenta provas de que o ex-reitor teria se beneficiado financeiramente por essa participação. A Folha questionou a Polícia Federal sobre a ausência de provas contra Cancellier, mas obteve como resposta apenas que a investigação está finalizada.”

Eis um dos mais trágicos resultados de erros de investigação, motivados certamente pela prática que virou hábito instalada na grande mídia de antecipar julgamento para atingir objetivos políticos: a morte de um inocente condenado à execração pública, sem que nada do que tivesse dito à época em sua defesa teria lhe conferido ao menos o benefício da dúvida.

Quem pagou pela morte de Cancelier? Quem paga pelas mortes em vida daqueles cuja reputação é a maior credencial com a qual sempre contaram para viver? E quando é o Estado o responsável diretos por tragédias como a que se abateu sobre Luiz Carlos Cancalier o silêncio jamais será a melhor resposta.

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