22/05/2019 - 12h11

Cobertura do caso envolvendo Fernando Catão expõe parcialidade da mídia paraibana

Por Flávio Lúcio

No início da manhã de hoje (22/05), a Polícia Federal cumpriu mandatos de busca e apreensão na residência do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Fernando Catão, na sede do próprio TCE e na Associação de Proteção Ambiental (Apam), de Campina Grande.

Trata-se da quarta fase da chamada operação Xeque-Mate, na qual a polícia investiga manobras de Roberto Santiago, proprietário do Shopping Manaíra, para impedir a construção do Pátio Shopping Intermares.

No caso da operação de hoje, a concessão da estranhíssima medida cautelar concedida por Fernando Catão, que ampliou suas atribuições de mero conselheiro do TCE, incorporando as de juiz, e suspendeu o início da construção do shopping, isso a pedido de uma entidade que dizia defender o meio ambiente de Cabedelo, com sede em… Campina Grande!

A julgar pelo que fizeram no acompanhamento da Operação Calvário, que levou à prisão e à condenação antecipada de Livânia Farias, e às demissões de Gilberto Carneiro e Waldson Sousa, eu esperava de nossa mídia uma explosão de comentários indignados, de textos dedicados à louvação do Ministério Público e ao combate à corrupção, com imagens dos envolvidos ocupando quase todos os espaços das publicações, transcrições do material vazado, tudo para alimentar correntes de Whatsapp.

Mas, não.

Nos que publicaram algum registro, a cobertura tem sido quase protocolar, talvez porque tenha saído na Globo-TV Cabo Branco e, sabe como é, se saiu na Globo…

E mesmo assim, na maioria dos sites, a matéria que registra a operação logo cedeu lugar às explicações de Fernando Catão.

Às 11h20 percorri esse sites e vejam os títulos das matérias que preenchiam a cabeça da página, o lugar de maior destaque de uma página de internet.

Portal Correio: Catão nega envolvimento na ‘Xeque-Mate’ e diz ter consciência tranquila

Jornal da Paraíba: Xeque-Mate: Catão nega ilegalidades e diz que não perde “um minuto de sono”

Paraíba.com.br: Conselheiro do TCE diz que agiu com legalidade: ‘tenho a consciência tranquila’

MaisPB: Alvo da PF, conselheiro do TCE-PB reafirma legalidade de medida

Blog do Anderson Soares: Ricardo Coutinho será testemunha de defesa do ex-presidente Lula

Marcelo José: Bandidos explodem agências do Bradesco e Banco do Brasil em São Bento e atiram em prédio da Companhia da Polícia Militar

Helder Moura: FARRA NAS DOCAS II – Sindicalistas acionam MP contra pagamento de mais meio milhão a ex-diretores

Politika: 8 anos depois, escândalo do ‘mensalão paraibano’ acaba em pizza

Essa é nossa imprensa! Ou melhor, é essa a nossa imprensa?

Quando o envolvido é um adversário político, condenam por antecipação, cuidam de humilhá-lo e desmoralizá-lo junto à opinião pública” não dispensam quase nenhum esforço em ouvir o que o/a acusado/a tem a dizer em sua defesa, e, quando o fazem, fazem de maneira irônica e jocosa. Viram máquinas de moer reputações.

Mas, quando se trata de um aliado, a coisa muda de figura!

Não se defende aqui que seja feito com Fernando Catão, tio de Cássio Cunha Lima e nomeado pelo ex-governador para o TCE, o mesmo que fizeram com Livânia Farias. É o contrário!

Que façam com Livânia Farias o mesmo que estão fazendo com Fernando Catão! E, se for o caso, denunciem possíveis arbitrariedades, a espetacularização de ações como a de hoje, que atingem inevitavelmente a imagem não apenas de pessoas, mas de instituições, as prisões desnecessárias, enfim, que sejam defendidos o respeito a dois princípios fundamentais do direito, que são mais do que isso, são valores civilizatórios, duas condições que definem o que é ser “ocidental”: a equidade jurídica e o postulado segundo o qual ninguém é culpado antes de julgado e condenado.

Porque quando esses valores são ultrapassados, é a cortina para o vislumbre da barbárie fascista que se abre, é a boca de um dragão cujo fogo expelido nos consumirá a todos porque − e esse caso demonstra isso − ninguém estará a salvo.

Repito: Ninguém estará a salvo.

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