01/07/2019 - 12h03

O monstro do lavajatismo

Por Flávio Lúcio

Se havia alguém que ainda resistia em reconhecer a parcialidade do ex-juiz Sérgio Moro, as trocas de mensagens vazadas durante o final de semana pela Folha de São Paulo, Veja e Intercept Brasil não permitem mais margem para qualquer dúvida.

Nessas mensagens, agora são os próprios procuradores do MPF que desnudam juiz curitibano e sua atuação partidária.

A procuradora Monique Checker, por exemplo , chega a ir além ao apontar que “Moro viola sempre o sistema acusatório e é tolerado por seus resultados”, afirmação que não é apenas estranha na boca de uma procuradora. Sendo procuradora, por que ela não agiu para impedir que um crime continuasse a ocorrer? E note-se que a “denúncia” foi feita para um grupo de outros procuradores.

Mais ainda. A mesma procuradora se refere a Moro como “inquisitivo”, que usava o Ministério Público para “corroborar suas ideias”, que o MPF do Paraná “sempre tolerou isso”, e que essa fama de Moro era antiga. “Desde que eu estava no Paraná, em 2008, ele já atuava assim (…) Fez umas tabelinhas lá, absolvendo aqui para a gente recorrer ali…”

O problema não diz respeito apenas ao reconhecimento da parcialidade de Sérgio Moro, parcialidade que já foi denunciada não apenas pelos advogados de Lula, no Brasil e na ONU, mas por inúmeros advogados dentro e fora do paí. O agravante é saber que procuradores atuavam como cúmplices do juiz curitibano, fazendo “tabelinhas” com ele só arrepio da lei. E isso dito por uma procuradora federal, e sem ser questionada por isso.

Mais ainda, quando Sérgio Moro resolveu aceitar o convite para participar do governo Bolsonaro, o que evidenciaria a atuação parcial, orientada por interesses políticos pessoais, a preocupação manifestada por procuradores não foi com as ilegalidades, mas com a perda dos poderes adquiridos pelo MPF, poderes que iam além dos limites estabelecidos pela Constituição.

Uma das mais graves opiniões nesse sentido saiu do teclado do smartphone do procurador Sérgio Luiz Pinel Dias, do Rio de Janeiro. Vejam o que ele escreveu em um dos grupos do Telegram:

“Thamea e colegas, pessoalmente acho ruim para o legado da LJ, por melhor que sejam as intenções dele de tentar influir por dentro. . . . Para mim, a Lava Jato, além de ser um símbolo, é um método de atuação das nossas instituições, que nos permitiu, até aqui, surfar juntos em uma excelente onda.”

Os tais métodos da Lava Jato a que se refere o procurador todos nós conhecíamos por fora. Com as revelações do The Intercept, sabemos agora “por dentro”.

Que métodos são esses? Eu vou citar os que consisero os mais importantes:

1. Prisões cautelares sem prazo de validade com o objetivo de forçar delações premiadas, negociadas ao gosto do Ministério Público, inclusive com substituição de advogados da defesa e a indicação de outros pelo MPF;

2. Buscas e apreensões para criar antecipações de julgamento e intimidar possíveis reações políticas dentro e fora do Congresso;

3. Vazamentos seletivos contra setores da política nacional, sobretudo de esquerda;

4. Apoio da mídia corporativa e seus satélites para fortalecer e endossar o descumprimento da lei, o que demonstra a existência se projetos políticos e econômicos comuns.

Foram esses métodos que o procurador Sérgio Luiz Pinel Dias, do Rio de Janeiro, disse que se institucionalizaram, o que não vem a ser exatamente uma novidade.

Outras “operações”, como o “Calvário”, seguem o mesmo script, o mesmo modus operandi, sendo ela uma das filhas da Lava Jato.

So que parece,  o combate à corrupção foi apenas um álibe para que o projeto político hoje em curso no país se viabilizasse. Um projeto que está destruindo as bases do Estado-nação, o que restava das empresas nacionais com potencial para uma atuação global, e corroendo por dentro as instituições da nossa democracia.

Ou o Brasil reage ou seremos todos engolidos por esse monstro.

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