09/07/2019 - 19h07

João Azevedo negociaria apoio à reforma da previdência em troca de mais recursos para o estado?

Por Flávio Lúcio

Por mais de uma vez nesses últimos seis meses fui tomado pela dúvida se o governador João Azevedo tem a dimensão do que é ser, nos dias de hoje, governador de um estado nordestino.

E se o governador da Paraíba tem clareza de que a fortuna política que o conduziu à cadeira de governador é resultado de um movimento de mudanças, e que foi muito bem compreendido, para ser traduzido em ação política, não pelos bajuladores de plantão de todo e qualquer governador, mas por quem soube compreender o alcance das mudanças em curso na sociedade e na política paraibanas?

E que permitiram, por exemplo, que um farmacêutico pessoense acabasse com o festim das oligarquias paraibanas?

Ontem foi um desses dias em que essas dúvidas voltaram a me assaltar. Durante a reunião da Executiva Nacional do PSB que decidiu a posição do partido sobre a reforma da previdência, João Azevedo fez um discurso carregado de dubiedades

Ao mesmo tempo em que acentuava os problemas financeiros dos estados, fazendo menção déficits incorrigíveis, o governador reconhecia que, mesmo se aprovada, a reforma só diminuiria em torno de 20% desse déficit.

Talvez por isso, deu tanta ênfase ao que chamou de “pauta federativa”, que, a rigor, nada tem a ver com o debate sobre a previdência, já que os recursos que financiam a previdência dos servidores estaduais têm originam no próprio estado.

O que não quer dizer que pauta federativa não seja um debate urgente, necessário e fundamental, mas é perda de tempo sugerir que um governo de viés autoritário e que tem no corte dos gastos públicos o principal instrumento de política econômica, negocie seriamente descentralização dos recursos arrecadados pelo governo federal.

Mesmo assim, João Azevedo foi enfático: “Eu entendo perfeitamente que não há outra posição para o PSB [que não seja] estar na vanguarda e contrário a todos essa alterações [na previdência] que prejudicam os trabalhadores”.

Apoio à reforma como moeda de troca?

O dia seguinte, entretanto, parece ter sido de ajustes no discurso do Governo da Paraíba.

Num artigo intitulado “A reforma que João queria” o jornalista Heron Cid procura traduzir o pensamento do secretário de comunicação, Luís Torres sobre o desenrolar das negociações da reforma da previdência.

Heron fez saber ao mundo que João Azevedo adotou nas negociações a “postura mais moderada entre os radicais colegas do Nordeste“, que, segundo ele, são “movidos muito mais pela tal ideologia e o ranço das urnas do que por uma convicção administrativa responsável.” Um discurso bem ao gosto do bolsonarismo, para quem só existe ideologia na esquerda.

De qualquer modo é bom que João Azevedo tenha mais cuidado na escolha dos seus porta-vozes porque definitivamente não é de bom-tom atribuir termos politicamente grosseiros e carregados de preconceitos ideológicos, sobretudo ele que foi eleito por um bloco de esquerda, para se referir aos outros colegas nordestinos, principalmente tratando-os como radicais irresponsáveis.

Na mesma linha, seria bom que o governador confirmasse o que escreveu o jornalista Heron Cid em seu blog, traduzindo as palavras de Luís Torres, que disse nunca ter havido da parte de João Azevedo “declarações frontalmente contrárias” à reforma da previdência, insinuado que “João reinvindicava (sic), no paralelo, compensações para os estados, a partir da chamada Pauta Federativa, que ajudaria a colocar dinheiro novo nos cofres e a diminuir os déficit’s (sic)”.

A gravidade dessa afirmação só não é maior porque no texto é dito que o governador da Paraíba “aceitaria” negociar a “pauta federativa” em troca do apoio à reforma da previdência:

“Como [João Azevedo poderia] defender a reforma sem ela contemplar diretamente as realidades e desafios regionais? Por isso, sobrou pouca margem que não fosse a de ceder à deliberação tomada pelo seu partido, o PSB, durante a plenária nacional, que fechou questão no voto contrário ao texto.”

Das duas, as duas ou nenhuma:

  1. João Azevedo aceitaria negociar o apoio a uma reforma que ele mesmo disse “prejudicar os trabalhadores”?;
  2. O governador da Paraíba se insurgiria contra a decisão do seu partido caso os termos que ele sugere para as negociações tivessem prosperado?

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