01/08/2019 - 13h08

João Azevedo vai romper com Ricardo Coutinho?

Por Flávio Lúcio

Sete meses após o governador João Azevedo ter assumido o cargo, a situação política da Paraíba está tão confusa , que é difícil não considerarmos a possibilidade de que o estado caminha a passos largos para um grande retrocesso administrativo.

Se isso vier mesmo a acontecer, a volta ao passado será anunciada em tom despreocupado como um rearranjo de forças políticas, que logo dará lugar à formação de novos blocos.

Operados através de uma radical mudança de posição das forças progressistas do estado, com consequente perda de poder e influência administrativas sobre as políticas públicas inovadoras que foram implementadas ao longo dos últimos oito anos e lograram mudar a face da Paraíba.

Foi esse movimento de mudanças liderando por Ricardo Coutinho que integrou o estado na rota das mudanças que começaram a acontecer no Nordeste a partir de 2003, ou mesmo antes.

Quer um indício? Segundo lideranças do MST, João Azevedo se negou até agora a recebê-las para discutir pautas urgentes do movimento, sobretudo referente a desocupações em andamento na Paraíba.

Nesse caso, uma pergunta se torna inevitável: será que toda disposição para o diálogo, o atual governador reservou para Assembleia? Ou a ideia de “diálogo” é a mesma do prefeito de João Pessoa?

Os mais ingênuos podem até adotar o discurso dos mais espertos de que, o que está em andamento na Paraíba é, na verdade, um ajuste meramente administrativo para adequar o governo ao estilo do novo governador.

Sinto lembrá-los, e espero sinceramente estar errado, mas não é bem assim que as coisas funcionam em política.

O que parece estar por acontecer na Paraíba é um poderoso deslocamento de forças, com movimentos de dentro para fora, mas, sobretudo, de fora para dentro do governo, onde as forças progressistas perdem cada vez mais a influência conquistada ao longo dos anos em que Ricardo Coutinho governou a Paraíba, para darem lugar às velhas forças tradicionais, do familismo oligárquico e patrimonial, que, até 2011, governaram o estado desde sempre.

Sim, porque nesse jogo não há espaços para acomodações. As perdas de espaços políticos do PSB – isso se o PSB não aceitar cumprir um papel coadjuvante, – já em curso, serão necessariamente compensadas com a adesão de outras forças políticas ao governo.

Como não há muita escolha quando se observa a composição da Assembleia, onde esse jogo é jogado, o atual governador, que não tem ainda liderança própria e carece de experiência para enfrentar o jogo bruto da política oligárquica, terá de oferecer espaços, e cada vez maiores ao longo do seu governo, a essas forças.

MUDANÇA NA SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO

O anúncio do pedido de exoneração do jornalista Luís Torres da Secretaria de Comunicação do governo do estado, como era previsível, causou intenso alvoroço nos meios políticos e jornalísticos da Paraíba.

As especulações que correm soltas, entretanto, estão mais relacionadas a quem será o novo secretário, do que a respeito dos motivos que levaram Luís Torres a deixar o cargo, que ocupava desde 2013.

Luís Torres justificou a decisão falando de cansaço e da disposição para voltar a fazer jornalismo, o que não soou nem um pouco verdadeiro.

Se Torres estivesse com tanta saudade do “batente” teria anunciado essa disposição seis meses atrás, antes de começar o governo de João Azevedo.

O mais provável é que ele tenha sido convidado a sair, de acordo com o novo estilo baseado no diálogo do atual governador, que o próprio Torres cuidou de marcar como uma das diferenças de estilo entre JA e RC.

Águas passadas. O que chamou mesmo a atenção foram os movimentos iniciados por uma trupe de jornalistas de oposição para emplacar o novo secretário. Não faz muito tempo, esse grupo de jornalistas se esgoelava para impedir nas rádios, TVs e blogs para impedir a eleição de João Azevedo.

Em um movimento organizado − que não deixa dúvida pelo sincronismo de ideias e intenções, − esse grupo jogou Luís Torres às feras, atribuindo a desgraça do ex-secretário aos seus vínculos com o ex-governador Ricardo Coutinho, o que, por si só, já desvendaria o caráter dessa algazarra.

Segundo o jornalista Alan Kardek, que até ontem continuava a chamar João Azevedo de “postee a publicar lembranças dos áureos tempos ao lado de Cássio Cunha Lima, um dos candidatos ao lugar de Luís Torres é o jornalista Heron Cid (clique aqui para acessar o brilhante texto).

Heron deve ter se empolgado com a possibilidade porque publicou em seu blog texto intitulado O fim do quarteto fantásticoA postagem era ilustrada com uma montagem de quatro fotos dos ex-secretários de João Azevedo e Ricardo Coutinho, Livânia Farias, Waldson Sousa e Gilberto Carneiro, além do próprio Luís Torres, todos marcados com vermelho no meio do rosto, a indicar que o motivo da demissão seria a origem ricardista dos quatro.

Não sei exatamente o motivo para tamanha descortesia por parte de alguém que, há bem pouco tempo, era só elogios ao ex-secretário, nem muito menos o motivo pelo qual Heron Cid tirou a matéria do ar, depois de ter enviado o link para acessá-la a vários grupos de Whatsapp.

Hoje, Heron Cid substituiu o texto, esse mais bem alinhado ao estilo bom-moço do jornalista, apesar da marca da traição ainda arder nas costas de Luís Torres.

O título foi alterado para Metamorfose, mas bem que poderia se chamar Elogio da traição. Para ser fiel à intenção, o texto é de uma bajulação desconcertante, sobretudo para um jornalista que tanto se esforçou, antes e durante a campanha, em criar cizânia e intrigas entre os apoiadores de João Azevedo ao governo.

Mais desconcertante ainda é observar que esse jornalista continuar a fazer isso, ostentando sem nenhum constrangimento − e sendo muito bem pago por isso, claro − banners da PMJP nos dois sites de sua propriedade, o MaisPB e o HeronCid.

Heron Cid e suas metamorfoses

A metamorfose que Heron Cid espera acontecer

No texto, Heron Cid descreve as mudanças que João Azevedo empreende em seu governo. Vejam alguns trechos:

“Sete meses depois [do início do governo], ora os fatos, ora as circunstâncias se encarregaram de criar o terreno para Azevêdo promover mudanças na configuração do eixo central de sua administração.

Secretários de áreas estratégicas (Procuradoria, Administração, Finanças, Planejamento, Saúde e Comunicação) deixaram suas pastas.”

(…)

A “metamorfose” de João Azevedo, segundo o nosso Conselheiro Acácio, ofereceu ao governador a chance “de ir formatando um tecido mais alinhado ao seu figurino” − mais cheinho, certamente, − e a “oportunidade de, pouco a pouco, delinear o governo com os traços do seu próprio rosto”, ou o de Nonato Bandeira, dizem a más línguas.

Mesmo que tardiamente, Luís Torres deve ter aprendido a lição. Espero que João Azevedo seja capaz de se antecipar às traições, porque assim como os ratos costumam ser os primeiros a abandonar os navios em vias de afundar, os bajuladores do poder são os primeiros a mostrar-se por inteiro.

Basta querer vê-los.

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