06/08/2019 - 09h51

Intenção de Bolsonaro é dividir governadores do Nordeste

Por Flávio Lúcio

Sobretudo se for você for nordestino e tiver empatia com os mais pobres que vivem dentro e fora do Nordeste, não deve ter esquecido essas palavras:

− Dos governadores deparaíba“, o pior é o do Maranhão. Não tem que ter nada pra esse cara”.

Não vamos repisar aqui o quanto essa fala é carregada de preconceitos contra os nordestinos, principalmente quando sai da boca de um “carioca” como Jair Bolsonaro.

Depois, o presidente tentou se justificar afirmando que, quando fez menção ao termo “paraíba”, na realidade estava se referindo a João Azevedo, governador da Paraíba, e não aos outros governadores, embora ele só tenha citado Flávio Dino, governador do Maranhão.

Ontem, Jair Bolsonaro voltou à carga contra os governadores do Nordeste, mas com uma variação no discurso que deixa claro a nova estratégia.

Durante a inauguração da primeira parte da usina de energia solar de Sobradinho, fruto de um projeto-piloto desenvolvido durante o governo de Dilma Rousseff (clique aqui), Bolsonaro disse que os governadores querem transformar o Nordeste “em uma Cuba”, numa reação ao lançamento do Consórcio Nordeste, cujo objetivo é integrar ações administrativas dos estados da região com vistas a fortalecê-los em negociações, sobretudo no exterior.

− Para alguns governadores, é o Nordeste e o resto. Querem fazer disso aqui uma Cuba? − disse Bolsonaro, para logo depois recorrer à retórica da unidade depois de revelar uma clara intenção de oferecer tratamento desigual ao Nordeste: − O Brasil é um só, não queiram dividir regiões.”

Ou seja, Bolsonaro dá tratamento diferenciado ao Nordeste, e o título da matéria do Estadão que cobriu o evento em Sobradinho não deixa dúvida: Bolsonaro condiciona verba ao Nordeste a reconhecimento de governadores.

Para depois apelar para o discurso de unidade.

E se você acha que não tem consequência esses arroubos irresponsáveis do presidente, basta olhar para a redução promovida pela Caixa Econômica Federa na concessão de novos empréstimos para o Nordeste em 2019: para todo o país, a Caixa autorizou até agora R$ 4 bilhões para governadores e prefeitos de outras regiões, enquanto que, para o Nordeste, apenas R$ 89 milhões, o que representa pouco mais de 2% do total das operações do banco na região. (clique aqui para ler matéria do UOL sobre isso.)

Apesar de Bolsonaro fazer um ataque ideológico aos governadores, novamente sem distingui-los, o recado é dirigido àqueles cuja filiação partidária não é de esquerda, como são os casos de Renan Filho (PMDB), de Alagoas, e Belisário Chagas (PSD), de Sergipe.

Como ele já percebeu que João Azevedo não quer briga – nunca quis, na verdade, já que essa é uma invenção de Bolsonaro para justificar seus atos discriminatórios contra quem pensa diferente, – o governador da Paraíba está entre seus alvos.

O complemento das declarações do presidente não deixa dúvida sobre a intenção de dividir os governadores nordestinos.

“O que eu quero desses respectivos governadores: não vou negar nada para esses Estados, mas se eles quiserem realmente que isso tudo seja atendido, eles vão ter que falar que estão trabalhando com o presidente Jair Bolsonaro. Caso contrário, eu não vou ter conversas com eles, vamos divulgar obras junto a prefeituras”.

Fica estendida a almofada para os governadores do Nordeste se ajoelharem.

E JOÃO AZEVEDO?

Ontem, o nome do governador João Azevedo foi mencionado, o que não aconteceu da última vez.

A intenção teve um duplo objetivo. Reforçar a versão de que o termo “paraíba” usado da primeira vez se referia ao governador João Azevedo, e não aos nordestinos, e aumentar ainda mais a pressão sobre o paraibano.

Ao seu estilo, Bolsonaro responde aos acenos mais do que explícitos de João Azevedo. O governador da Paraíba sugeriu em reunião realizada na Granja Santana na última sexta que a bancada federal evitasse confrontos com o presidente no Congresso. (clique aqui para ler análise do blog)

Ao seu lado estava ninguém mais ninguém menos do que Efraim Filho, o líder do DEM na Câmara, o partido que é o principal fiador do governo no Congresso porque controla a presidência da Câmara (Rodrigo Maia) e do Senado (Davi Alcolumbre).

Efraim certamente está entre aqueles que tentam convencer João Azevedo a romper com o campo progressista no Nordeste e se mudar de mala-e-cuia para o campo bolsonarista.

Durante o final de semana, em artigo publicado no site Polêmica Paraíba, o jornalista Rui Galdino tratou o governador como “moderado” e afirmando que ele “NUNCA” foi socialista. Eu também tratei disso no blog (clique aqui para ler.

E os acenos não pararam por aí. Ontem o senador Veneziano Vital do Rego, que também participou do café-da-manha, cobrou a inclusão dos estados na reforma da previdência, isso apesar do partido pelo qual Veneziano se elegeu, o PSB, ter decidido que seus parlamentares deveriam votar contra a reforma. Veneziano pretende descumprir a orientação partidária?

Todas essas peças juntas nos permitem trabalhar com a hipótese de que João Azevedo pode ser incluído entre aqueles com quem Bolsonaro deseja abrir diálogo. A questão é saber até onde vai a disposição do governador da Paraíba e as “contrapartidas” que se dispõe a oferecer.

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