14/08/2019 - 20h25

Os fios desencapados de Nonato Guedes contra Ricardo Coutinho

Por Flávio Lúcio

A Paraíba observa um curioso fenômeno que se acirra a cada dia em numerosos blogs da internet: jornalistas que antes se esgueiravam nas trincheiras da oposição a Ricardo Coutinho, agora se arvoram a oferecer conselhos ao governador João Azevedo.

Nem parece que seus “diagnósticos” foram derrotados 10 meses atrás, e no primeiro turno da eleição, pelo próprio João Azevedo. Ou seja, se João Azevedo desse ouvidos a esses prognósticos estaria hoje curtindo sua aposentadoria e não sentado na cadeira de governador.

Em um artigo sintomaticamente intitulado Há “fios desencapados” na relação entre Ricardo Coutinho e Azevêdo, o jornalista Nonato Guedes, um dos decanos da nossa imprensa, aconselhou o governador João Azevedo a exigir “fidelidade absoluta” dos assessores remanescentes do governo anterior.

A razão para tanto é que Guedes parece deveras incomodado com a insistência desses assessores de continuarem a “bater continência” a Ricardo Coutinho, o que seria um desrespeito, segundo ele, a quem agora “tem a caneta nas mãos”.

Nonato Guedes chega mesmo a sugerir que esses assessores deveriam, caso se sintam constrangidos a aceitar a nova ordem, “pedir o boné e inscrever-se numa das filas de postos de emprego”. Se isso acontecesse, não tenho dúvidas de que seria mesmo uma festa no jornalismo de oposição paraibano.

Num único parágrafo, Nonato Guedes consegue expor suas noções sobre poder, liderança e compromisso programático, confundindo a origem e a base social de João Azevedo e Ricardo Coutinho com a do familismo oligárquico mais tacanho, onde a lealdade exigida é sempre às pessoas e não aos projetos.

Os próprios termos usados (“fidelidade absoluta”, “bater continência” “caneta nas mãos”) deixam a nu os traços autoritários de quem está acostumado a sugerir subserviência ao poder.

Óbvio que não estou a defender aqui posturas que possam ser confundidas com atitudes de liberalidade, que coloquem em risco a unidade política e a homogeneidade administrativa de um governo. Longe disso.

O trato de qualquer eventual diferença deve se dar tendo em vista o horizonte dos objetivos estratégicos de qualquer administração − na economia do estado, na sociedade, e até da cultura política.

E não me consta que João Azevedo pretenda mudar o rumo programático de um governo a quem ele sucedeu, e que ele foi eleito para dar continuidade − pelo menos foi o que o atual governador disse que faria durante a campanha.

Volto a repetir: o cargo de governador que João Azevedo ocupa nesse momento não é resultado apenas de suas qualidades individuais, como agora querem fazer crer antigos detratores.

E esse reconhecimento em nada diminui João Azevedo, que só se elegeu governador porque foi capaz de encarnar a continuidade de um projeto político-administrativo que se propôs a mudar o estado, e em oito anos promoveu profundas transformações, não apenas na forma, mas para quem governava.

Se houvesse mesmo algum interesse minimamente republicano em meio àqueles que oferecem seus “conselhos” a João Azevedo, hoje, o que estaria em observação seria o aprofundamento do projeto iniciado por Ricardo Coutinho, e não um retrocesso que, em coro, essa turma defende.

Por isso, como num ato-falho, o que Nonato Guedes sugere a João Azevedo é ele seja desleal: desleal com Ricardo Coutinho, com o projeto liderado pelo ex-governador, com parte das forças políticas que ajudaram a tornar esse projeto vitorioso, e com os que, individualmente, trabalharam dia e noite para que a gigantesca vitória política alcançada em 2018 se realizasse.

Mais do que desleal, Nonato Guedes sugere que João Azevedo seja mesquinho.

Comentários