03/09/2019 - 11h14

Monteiro foi o Rubicão de João Azevedo?

Por Flávio Lúcio

Vamos tentar ir além desse besteirol inútil da imprensa bolsonarista que pretende medir o sucesso de um evento político exclusivamente pelo número de pessoas que foram ao SOS Transposição, no último domingo, em Monteiro.

Uma frase da coluna de ontem do sempre arguto jornalista Wellington Farias, no PBAgora, permite-nos superar com rapidez essa falsa querela para irmos diretamente ao que interessa: “O SOS Transposição não teve a multidão que os organizadores desejavam, mas muito menos, ainda, foi o fiasco ‘festejado’ pelos que se opõem ao projeto político do ex-governador Ricardo Coutinho.”

Se alguém tem dúvida a esse respeito, observe as fotos e vídeos que registram o público enquanto o ato acontecia, que existem às centenas na internet, para fazer seu próprio juízo de valor.

Eu estava em Monteiro no domingo e posso afirmar que, diante de circunstâncias de várias ordens, políticas e climáticas, o SOS Transposição cumpriu seu objetivo, inclusive de público, e o esforço para tentar diminuir o impacto do evento é uma prova do seu sucesso. Ninguém joga pedra em árvore que não dá fruto.

Dito isso, vamos ao que é realmente é importante.

A primeira questão a ser observada é a justeza da bandeira que mobilizou as pessoas que foram a Monteiro no domingo: a obra da Transposição está sendo destruída deliberadamente pelo governo Bolsonaro.

Sem a água que deveria estar correndo pelos canais em direção aos reservatórios da Paraíba, os canais de concreto estão sendo erodidos pela ação do sol causticante, e o engenheiro João Azevedo, especialista em recursos hídricos, sabe disso mais do que ninguém.

Esse é um dos aspectos que explicam o esforço quase obcecado da imprensa bolsonarista para atacar o SOS Transposição.

Primeiro, tentaram desmobilizar o evento, praticamente forçando o governador a não ir a Monteiro, criando o fato consumado ao colocarem palavras em sua boca e manipulando suas opiniões sobre o evento.

E deu certo porque o governador, infelizmente, acabou cedendo às pressões. E o motivo é qie meios de comunicação, como o bolsonarista Sistema Correio, tentam tirar o foco de Jair Bolsonaro, que demonstra até onde pode ir sua insensibilidade ao deixar uma imensa população sem direito à água.

Subjacente a isso, está novamente o objetivo de submeter essa população à indústria da seca que, por mais de um século, alimentou as oligarquias do Nordeste, política e econômicamente. Essas pessoas não querem o povo livre dessas amarras. É disso que se trata e é essa razão, entre outras, que explicam o apoio que dão a Jair Bolsonaro.

OS CAMPOS ESTÃO DEMARCADOS NA PARAÍBA

Um segundo aspecto desse embate em curso está relacionado com a consequência política de maior relevância do SOS Transposição. É que os embates em torno de sua realização permitiram que os campos políticos ficassem nitidamente delimitados.

Depois de domingo, a opção que restou ao governador João Azevedo foi, em caso de rompimento com Ricardo Coutinho, aliar-se ao conservadorismo político dos grupos tradicionais na Paraíba. Os recados nesse sentido são de uma clarividência que não deixam margem para outra interpretação.

Não bastassem as presenças de Fernando Haddad, Gleise Hoffman, Luiz Couto e do presidente estadual do PT, Jackson Macedo, a carta que Lula escreveu para ser lida em Monteiro (veja imagem acima), com a orientação expressa de ser entregue a Ricardo Coutinho, demonstra cabalmente que o PT manterá sua aliança com o ex-governador.

No caso do PSB, a presença do deputado federal João Campos é mais um desses recados de nitidez cristalina, numa indicação de que a direção nacional do PSB, como não poderia ser diferente, não pretende trocar a liderança de Ricardo Coutinho pela “influência” recém-adquirida de João Azevedo, em caso de um racha entre os dois.

A incorporação de outros partidos e de lideranças a esse campo ainda vai depender de novos movimentos, mas, no caso da Paraíba, a manutenção da aliança que vai manter a junção das lideranças de Lula e de Ricardo Coutinho no mesmo palanque, será, ao mesmo tempo, um fator importante de diferenciação e, no tempo certo, de aglatinação política.

Principalmente num ambiente marcado pela deterioração das expectativas em relação ao governo Bolsonaro, que desmorona a olhos vistos, sem oferecer soluções mais consistente para a superação da crise econômica.

A pesquisa Datafolha de ontem é mais um dos indicativos dessa erosão recorde de popularidade e influência política, que agora começa a chegar aos mais ricos, e que é avassaladora no Nordeste.

As portas do tradicional campo oligárquico, que em todo o Nordeste é aliado de Bolsonaro, estão abertas a João Azevedo.

Ao que tudo indica, no domingo, o governador começou a limpar os pés no tapete que foi estendido antes dessa porta. Assim como Júlio Cesar atravessou o Rubicão, numa decisão sem volta para confrontar a República romana, recomenda-se que João Azevedo, antes de entrar, espie bem o que ele vai encontrar do outro lado, sobretudo o custo político e administrativo desse movimento definitivo.

Coisa boa não tem dentro dessa casa, governador.

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