10/09/2019 - 07h50

João Azevedo já tem o governo do estado na mão, ele quer mais o quê?

Por Flávio Lúcio

Caso João Azevedo não aceite a proposta da Executiva Nacional do PSB para a solução do impasse político que, há meses, deixa a política paraibana em compasso de espera, o único caminho para o governador será mesmo a saída do partido pelo qual se elegeu governador no ano passado.

E o rompimento com Ricardo Coutinho, aquele sem o qual João Azevedo jamais – faço questão de repetir – jamais seria governador. E tantos outros que hoje espezinham o ex-governador, exibindo uma ousadia irônica que jamais tiveram, jamais teriam como sonhar com o poder que esperam ter.

Na carta que João Azevedo enviou à Direção Nacional do PSB, João Azevedo usa o plural majestático que soa artificial em muitos sentidos. E por uma razão que qualquer pessoa minimamente informada sobre política na Paraíba saberia identificar o motivo: exclua dessa construção o nome de Ricardo Coutinho para ver o que é que sobraria.

João Azevedo era o “técnico”, lembram? Nunca se dispôs a colocar a mão na massa para construir partido algum e os ricardistas roxos que hoje o cercam só fizeram isso por conta das orientações estratégicas, da liderança e do peso político que Ricardo Coutinho adquiriu no governo.

Além da eleição do próprio João Azevedo no primeiro turno, derrotando os mesmos que hoje se esgueiram numa esforço de aproximação, quantos dos “08 deputados estaduais, 01 deputado federal, 01 senador”, que o governador enumera na carta, teriam sido eleitos sem a força política e o poder de aglutinação que um governo e um governador bem avaliados são capazes de produzir.

O poder da caneta faz milagres, dirão os mesmos que estimulam a cizânia e a intriga de João Azevedo com Ricardo Coutinho, mas esses milagres não se sustentam. São miragens políticas.

Vejam o caso do ex-governador Tarcísio Burity, que usou o tal poder para formar o PRN na Paraíba, o partido do então presidente Fernando Collor, quando rompeu com Humberto Lucena, Antonio Mariz e Ronaldo Cunha Lima  e saiu do PMDB. Com o poder da caneta, Burity montou um grande partido, que durou até que seu governo chegasse ao fim com a eleição do desafeto Ronaldo Cunha Lima. Impressiona como os dois casos guardam semelhanças.

Vamos refletir um pouco.  Que partido era o PSB na Paraíba até a entrada de Ricardo Coutinho, em 2003? Uma antessala, ou melhor, uma cozinha dos Cunha Lima, porque, como já lembramos por aqui, até alguém como Ricardo Barbosa passeou por lá.

De uma legenda inexpressiva, Ricardo Coutinho tornou o PSB o maior, mais enraizado e mais poderoso partido do estado, com quase 20 mil filiados, 58 prefeitos e 399 vereadores. É óbvio que a eleição de Ricardo Coutinho ajudou muito, mas, caso João Azevedo saia mesmo do PSB, o partido perderá muita gordura, os aderentes de sempre, mas não desaparecerá, porque a identidade do PSB é o legado político e administrativo de Ricardo Coutinho.

João Azevedo vai penar para acomodar o trem da alegria que hoje se oferece para ele.

Voltando à carta, João Azevedo tenta argumentar que o ex-presidente do PSB, Edvaldo Rosas, “repassou” o comando político da legenda a Ricardo Coutinho – nesse ponto, pausa para uma risada em homenagem ao inesquecível Paulo Henrique Amorim:  quá, quá, quá, quá! – E que RC recusou!

É claro! Ricardo Coutinho jamais imaginaria que, meses depois de sair do governo para casa, sem ocupar cargo algum por conta da prioridade que deu à eleição de João Azevedo, teria de lutar para não ser isolado dentro do partido que ajudou a construir.

A começar pela traição do próprio Edvaldo Rosas, que se dispôs a contribuir para esse objetivo sem nenhum constrangimento – aliás, ele e outros que eram ridicularizados como os “tarefeiros” de RC – ou, para usar uma expressão de Fabiano Gomes, eram os “doidinhos do Zorro” – pela mesma imprensa que hoje os bajula

O quadro mudou, por óbvio, e está em curso um esforço orquestrado de destruir a liderança política de Ricardo Coutinho, assim como fizeram com Lula. Os métodos são os mesmíssimos!

Mas, com uma diferença importante: Dilma não se dispôs a cumprir o papel deprimente de trair Lula, abandonando-o às feras! Dilma foi honrada, correta, leal.

Por isso, a carta que João Azevedo enviou ontem à Executiva Nacional do PSB, para rejeitar o único acordo possível – JA já tem o governo do estado, quer mais o quê?: pela proposta, Ricardo assume a presidência do PSB, enquanto João Azevedo assume a vice e tem maioria dos membros da comissão provisória.

Ou seja, a carta foi apenas mais um subterfúgio, entre tantos até agora, o capítulo final, talvez, de um enredo cujo desfecho pensado seria o isolamento completo de Ricardo Coutinho dentro do próprio partido.

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