16/09/2019 - 11h04

Ao dizer que defendeu candidatura de RC ao Senado, João Azevedo apenas se revela um pouco mais

Por Flávio Lúcio

Quando uma relação política, já sob ameaça de se desfazer, descamba para a desonestidade intelectual é sinal que já não existe mais nenhuma ponte erguida que possa sustentá-la, ou, como diria Ulisses Guimarães, a única janela que ainda persistia aberta acabou de ser fechada.

Durante entrevista ao competente jornalista Wallison Bezerra, da TV Tambaú, RC disse que não foi candidato ao senado na última eleição, entre outros motivos, por conta de um pedido feito pelo próprio João Azevedo.

Segundo RC, o então candidato a governador estava temeroso de que, caso Ricardo renunciasse para se candidatar ao Senado, haveria uma grande possibilidade de debandada de apoios de prefeitos e deputados, que poderiam abandoná-lo para acompanhar a mais que provável candidatura da vice-governadora Lígia Feliciano à reeleição.

Como Ricardo Coutinho tem repetido a cada entrevista, a roda gira. E girou. Tanto que, ontem, em resposta a RC, ladeado por Efraim Moraes pai e filho, numa feira do agronegócio, João Azevedo negou que tenha feito o pedido para que o então governador ficasse no cargo.

Mais ainda. No tom blasé, quase irônico, que tem se tornado habitual quando o governador fala sobre as disputas atuais no PSB paraibano, João Azevedo negou o pedido; ao contrário, defendeu que Ricardo Coutinho fosse candidato ao senado.

Quando se trata de uma conversa a dois, obviamente, é impossível afirmar quem disse a verdade sobre qualquer assunto discutido. Em razão disso, resta o uso da lógica política mais primária para desvendarmos quem mente nessa história.

Eu era um dos que achavam que a continuidade do projeto iniciado por Ricardo Coutinho ficaria em risco caso ele deixasse o governo.

Acreditando na solidez do compromisso de João Azevedo com o campo político que dava sustentação a esse projeto, escrevi vários artigos analisando os possíveis cenários caso Ricardo Coutinho deixasse o governo. Na época, eu respondia aos esforços da imprensa cassista que estimulava a permanência de Lígia Feliciano no governo.

Em um desses artigos, publicados no blog de Rubens Nóbrega em 17 de fevereiro de 2018, argumentei em defesa da permanência de Ricardo Coutinho no governo.

Como sempre, parte da imprensa que instigava a permanência de Lígia Feliciano porque tinha como certa renúncia de RC − a mesma que hoje estimula o racha no PSB, − estava (de novo) errada em seus prognósticos, que também incluam como certa a derrota do poste de Ricardo Coutinho, João Azevedo. Aliás, diziam que ele nem seria candidato e desistiria antes das convenções. Realmente, a roda gira.

A candidatura de JA sem RC no governo

João Azevedo era um ilustre desconhecido para a maioria do eleitorado paraibano antes da campanha começar − ele mesmo confirmou que as pesquisas mostravam que apenas 2% do eleitorado o conhecia no início de 2018.

Portanto, a vitória de um candidato que pouco agregava em termos de voto numa disputa contra forças tradicionais do estado, dependeria tanto do prestígio e da transferência de votos do governador, quanto da capacidade de aglutinação que o controle de uma poderosa máquina administrativa permite, a qualquer candidato em qualquer eleição.

Alguém tem alguma dúvida de que, logo após assumir o governo, Lígia Feliciano começaria a trabalhar por sua reeleição?

Os argumentos favoráveis seriam inúmeros: além de ter o direito legítimo nada a perder com a candidatura, a direção nacional do PDT, como seria mais do que natural, passaria a “exigir” a entrada de Lígia na disputa para dar suporte à candidatura de Ciro Gomes. Mais ainda: sendo vice-governadora de RC, Lígia poderia reivindicar também para si o discurso de continuidade administrativa.

A possibilidade da candidatura de Lígia contar com o apoio de parte da oposição, sobretudo de Cássio Cunha Lima e Luciano Cartaxo, era mais do que provável. Aliás, como se diz por aí, seria uma mão-na-roda para os dois, enredados num beco sem saída logo após a desistência do prefeito de João Pessoa da disputa para o governo do estado.

Agora, imaginem uma chapa formada por Lígia Feliciano governadora, Cássio e Lucélio para o Senado? E com a máquina do governo e das prefeituras de João Pessoa e Campina Grande unidas em apoio a essas candidaturas? Mais do que ninguém, o próprio João Azevedo, hoje, sabe a diferença que faz ter o governo na mão para arrebanhar apoio político.

Nessas condições, o governador eleito teria conquistado uma vitória tão expressiva, em primeiro turno? Acho improvável, e eu acrescento apenas dois argumentos a mais para reforçar essa opinião: primeiro, num quadro assim, as condições de campanha seriam fortemente alteradas; segundo, porque Ricardo Coutinho, ao invés de se preocupar com a eleição de João Azevedo e de uma bancada parlamentar numerosa, teria de se preocupar, claro, com sua própria eleição.

Portanto, não só faz todo sentido, como seria bastante natural diante da dúvida monstruosa que o então governador tinha sobre que decisão tomar, um pedido do seu candidato para que permanecesse no governo.

Se, com essa declaração, João Azevedo destruiu todas as ponte para uma reaproximação com Ricardo Coutinho eu não sei dizer. Mas, que ele se revelou um pouco mais, eu não tenho nenhuma dúvida sobre isso.

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