18/09/2019 - 12h11

Bacurau representa o Brasil mais profundo

Por Flávio Lúcio

Finalmente, assisti a Bacurau, ontem. Como eu registrei em um grupo de amigos de Whatsapp, logo após a sessão de cinema, o filme renderia umas duas horas de conversa, pelo menos.  Para não me alongar demais nesse texto vou destacar os pontos que considerei mais relevantes.

Há muitos temas que se entrecruzam no enredo de Bacurau que se desenrola em um futuro − quem não conhece o interior do Brasil, sobretudo do Nordeste, poderia acrescentar um “distópico”, mas seria apenas isso mesmo, desconhecimento − não muito distante do lugar que desapareceram com ele do mapa.

A cena que abre o filme já revela parte desse mundo que só no cinema provoca tanto estranhamento. Um caminhão-pipa carregado desce pelas ladeiras de uma estrada esburacada a caminho de Bacurau, e começa a se defrontar com caixões funerários espalhados pela pista, resultado de um acidente entre o automóvel que os transportava e um motoqueiro, que jaz sem vida no acostamento − a cena nos ajuda a lembrar que a moto é, hoje, o principal meio de transporte do interior do Nordeste, mas eu não deixei de pensar nos motoqueiros de aplicativos que, sem direito trabalhista algum e expostos à violência do trânsito, enchem as ruas das grandes cidades entregando comida.

Os caixões de defunto, aliás, são quase onipresentes em Bacurau, a nos revelar tanto a natureza dessa sociedade como o meio pelo qual, ao fornecê-los, muitos políticos perpetuam sua influência, alimentando um ciclo de miséria e morte tão conhecido de nós todos.

E no distrito de Bacurau não seria diferente. O prefeito high tech chega à cidade em campanha de reeleição, arrastando telas de led gigantes com suas propagandas − eis outro elemento imagético recorrente no filme: as telas de led estão em todos os lugares, em meio às ruas de terra batida, ao ônibus escolar que passou a servir de estufa, à falta de um sistema de esgotamento sanitário e abastecimento d’agua da cidade, à escola sem nenhuma infraestrutura, e aos habitantes sem emprego ou profissão, a não uma médica, um professor, duas prostitutas, um matador de aluguel e a dona da venda.

As telas digitais, sobretudo dos smartphones, são o símbolo de uma invasão que aconteceu há muito tempo, de uma dominação cultural que se converte, no ataque a Bacurau, numa invasão real, armada. Como invasão estrangeira, não por acaso, a de Bacurau é precedida pelo reconhecimento de terreno de um casal de brasileiros de classe média, ansiosos por servirem aos invasores. Fica claro que os dois não se sentem iguais aos habitantes (brasileiros) de Bacurau e, por isso, rejeitam ser tratados como tais. Apesar dos traços que denunciam sua mestiçagem brasileira, os dois se sentem europeus “do sul” do Brasil, nunca parte de um mesmo povo.

Por isso, só Bacurau pode resistir, só essa parte esquecida do Nordeste pode resistir.

Diferente das invasões das guerras contemporâneas por petróleo, a invasão a Bacurau é ausente de justificativa, nem sequer econômica. A invasão é motivada pelo puro deleite de matar de um grupo de civis norte-americanos, que vêm ao distrito para se divertirem num safári em que a caça são os moradores da cidade, incluindo crianças. E o assassinato de uma das crianças provoca um inacreditável debate sobre o limite ético entre os membros desse grupo de “caçadores” de homens e mulheres,

Apesar de ser um invasão sem justificativa, a invasão a Bacurau nos faz refletir sobre o papel legitimador dos civis às ações de potências militares, como EUA e Europa, na quais não deixam de se repetir ataques com mísseis a escolas e hospitais, e a morte de centenas de milhares de civis, incluindo aí, claro, crianças. Esses eleitores não sujam suas mãos de sangue, mas permitem que essas atrocidades se repitam a cada guerra.

E o recurso dos habitantes de Bacurau para enfrentar a superioridade armamentista e tecnológica dos invasores será o apelo à tradição, à engenhosidade, ao improviso e à coragem dos bacuraenses, e, mais importante, à sua história de resistência, imortalizada no único museu da cidade.

Bacurau representa o Brasil mais profundo, o Brasil de quem se sente parte do povo brasileiro. Em todos os sentidos, incluindo aí o político, Bacurau é resistência. Não por acaso, o filme se desenrola no interior do Nordeste.

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