18/10/2019 - 15h28

Gaeco vaza relatório de investigação para expor cidadãos/ãs à execração pública? Qual o sentido de tudo isso?

Por Flávio Lúcio

A imagem acima é da primeira página de um relatório produzido pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) sobre a delação premiada de Leandro Nunes, ex-assessor de Livânia Farias. Caso o/a leitor/a se interesse em ler o relatório completo, o texto pode ser baixado relatório-delação_-Leandro.

Registre-se que procurei esse documento na página do Ministério Público da Paraíba, que seria o canal para publicizar a toda sociedade essa informação, e nada encontrei.

Alguém pode estar se perguntando como eu tive acesso a uma peça de investigação que, por enquanto, é apenas o detalhamento do que disse um delator que ficou preso por mais de um mês no PB1 e, só depois disso, aceitou fazer uma “delação premiada”?

Quem tiver a paciência de percorrer as 49 páginas do relatório vai sentir falta de um detalhe que, nesses casos, têm se tornado irrelevante, porque a intenção política vale mais do que as preocupações com o chamado devido processo legal. Faltam no documento as provas do que ali é afirmado.

O que o relatório apresenta é um conjunto de imagens que qualquer estudante de ensino médio é capaz de recolher, bastando para tanto saber fazer pesquisas na internet. Através desse mecanismo sofisticado de investigação, os procuradores do Gaeco ilustraram um processo com fotos de prédios públicos, de empresa e prints de telas de computados que enchem as páginas do relatório.

Não é só isso. Fotos de pessoas mencionadas na delação estão lá para execração pública, para que os lobos do justiçamento político se refestelem com a carniça que lhes foi atirada, sem se preocuparem minimamente com o impacto que esse tipo de exposição pode causar nos investigados.

O blogueiro-mor da luta em defesa da moralidade – ele é conhecido apoiador de Cássio Cunha Lina e Luciano Cartaxo na imprensa- expôs a moça em destaque na página do seu blog (desfocamos a foto para não incorrermos no mesmo erro).

Vejam bem. Mesmo que as fotos fossem acompanhadas de provas incontestáveis das participações dessas pessoas em qualquer crime, nada justificaria expô-las ao público. Porque é isso que, por enquanto, essas pessoas são: suspeitas.

E se nada for comprovado contra elas? E se Leandro Nunes mentiu, como já aconteceu em várias outras delações premiadas para agradar os ouvidos dos ciosos procuradores? Quem pagará por esse crime? Os procuradores do Gaeco? O desembargador que não protegeu cidadãos da execração pública? É disso que se trata, afinal de contas.

Mas, como nem tudo é tragédia, há nesse método também uma inestimável pedagogia política, um aprendizado que aos poucos vai desvelando: temos um Estado – o Gaeco É o Estado – onde, para os procuradores responsáveis pela Operação Calvário, ao que parece, o que menos importa é a proteção do cidadão e dos seus direitos fundamentais, que são, pelo menos na letra morta da lei, protegidos pela Constituição brasileira.

E vazamentos seletivos tem sido parte do método da Operação Calvário. E nesse caso ele fica exposto em toda sua inteireza. Porque, a quê se presta tudo isso? Constranger os envolvidos? Antecipar julgamentos da “opinião pública” para pavimentar o caminho na direção do verdadeiro alvo? Infelizmente, esse roteiro já é por demais conhecido.

Por que esse documento, que deveria ser sigiloso, espalhou-se com essa velocidade? Em quê isso contribui com o aperfeiçoamento do sistema de investigação da Justiça, ou não é disso que se trata?

O desembargador Ricardo Vital abriu o sigilo desse relatório? Se abriu, por que fez isso? Se não, vai determinar a abertura de uma investigação sobre o vazamento? Ou vai fazer vistas grossas diante do que pode ser uma flagrante ilegalidade?

Não é possível é possível que nem a comunidade jurídica permaneça calada diante de fatos dessa natureza. O que a OAB diz sobre isso? Tem de relevante a acrescentar, ou a OAB também é parte desse enredo burlesco cujo final é transformar o Brasil numa República de Bananas?

PS. Ninguém noticiou, mas o cerco a João Azevedo começou.

Pág. 31 do relatório – “Fato relevante identificado durante pesquisa ao sistema do T.S.E, o senhor JOÃO FREIRE FILHO recebeu R$ 9.000,00 (nove mil reais) da campanha do candidato a governador, JOÃO AZEVEDO LINS FILHO (eleições 2018), referente ao pagamento de locação de veículo para publicidade. Já o senhor WILLINGTON ALVES FREIRE, irmão do senhor JOÃO FREIRE FILHO, recebeu R$ 18.000,00 (dezoito mil reais) da campanha do candidato a governador, JOÃO AZEVEDO LINS FILHO (eleições 2018), referente ao pagamento de locação de veículo para publicidade.”

Comentários