25/10/2019 - 10h35

Temos um anão político sentado na cadeira de governador?

Por Flávio Lúcio

Aquele que gosta de ser adulado é digno do adulador.

William Shakespeare

A entrevista que João Azevedo concedeu ontem à rádio Arapuã pareceu encomendada com o único objetivo de repercutir uma declaração do governador.

Segundo declarou João Azevedo, o único membro da bancada federal paraibana com quem não conversou, durante périplo que o governador fez pelo Congresso Nacional, foi com o deputado federal Gervásio Maia. Segundo Azevedo, Gervásio  não teria sido encontrado em seu gabinete quando o governador resolveu visitá-lo no começo da tarde de ontem.

Da longa e entediante entrevista, o que ganhou imediata repercussão foi esse trecho que o governador fez questão de destacar, tendo antes mencionado que até o deputado Julian Lemos, do PSL, o recebeu, tendo o deputado bolsonarista se comprometido a destinar parte de suas emendas parlamentares à iniciativas do governo estadual.

Há uma incomum, mas clara tentativa de inverter papéis quando o assunto são as divergências internas no PSB paraibano.

Por essa estratégia discursiva, João seria a Chapelzinho Vermelho e Ricardo Coutinho o Lobo Mau. João é o que “dialoga” (sabe-se o quê e com quem), e Ricardo é o duro, o “ditador”, por mais que tenha sido ele, por exemplo, quem criou os instrumentos para inserir o povo nos debates sobre o orçamento público.

Não se diz que, por exemplo, essa é uma luta bastante desigual.

Enquanto João Azevedo dispõe do gigantesco poder de governador para enfrentar essa batalha, Ricardo Coutinho dispõe hoje unicamente de sua liderança na sociedade e dentro do PSB.

Por isso, a intenção de arrancar o partido de Ricardo foi um round que assumiu ares estratégicos, e essa batalha João Azevedo perdeu, restando-lhe agora buscar outro partido.

Amuado, o governador mostra seus pendores de oligarca, argumentando que, se o PSB deseja continuar a tê-lo nos quadros partidários, a condição é que ele passe a ter o controle do partido. Bem cassista isso, não é mesmo?

E como Gervásio Maia se recusou a abandonar Ricardo Coutinho à própria sorte, como outros já fizeram, é tratado como o pior dos inimigos. Até Juilian Lemos merece homenagens de João Azevedo e de sua trupe na imprensa. E Julian Lemos foi o mesmo deputado que atacou recentemente Estela Bezerra, chamando-a em tom jocoso de “Estelão“.

Pouco se debate, entretanto, sobre as razões que teria Ricardo Coutinho para romper com João Azevedo, sobretudo depois do que o ex-governador fez em 2018 para eleger o atual governador.

O mesmo vale mais ainda para Gervásio Maia. O que ele ganha com esse rompimento, depois da gigantesca vitória de 2018, ele que foi o deputado federal mais votado da Paraíba?

Os ataques a Gervásio 

Foram poucos os que na imprensa procuraram o deputado federal do PSB para saber a respeito desse possível “desencontro”.

E como a palavra do governador atual é tratada, pela quase totalidade dos jornalistas como uma lei (natural), Gervásio é que teve de se explicar porque não estava à espera de João Azevedo em seu gabinete, mesmo que o deputado socialista não soubesse que receberia a ilustre visita. Com um detalhe: Gervásio Maia foi o último parlamentar a ser procurado.

O jornalista e ex-secretário de João Azevedo, Luís Torres, tratou em seu blog a justificativa de Gervásio como uma “emenda” que saiu “pior que o erro”, porque, para Torres, Gervásio tinha a obrigação de esperar pelo governador, mesmo sem saber que ele viria ao seu encontro.

A atitude de João Azevedo de agendar conversas até com quem é – ou foi – adversário político, reservando para Gervásio Maia uma visita de surpresa ao gabinete, revela mais uma vez o tamanho político do homem que hoje senta na cadeira de governador da Paraíba.

Isso porque, segundo Gervásio Maia declarou em várias ocasiões nas diversas entrevistas que concedeu sobre essa interminável crise no PSB,  o que significa que tanto os jornalistas que entrevistaram o governador como os que repercutiram essas declarações, não podem argumentar desconhecer que Gervásio Maia pede uma audiência com João Azevedo desde que o governador tomou posse, em janeiro de 2019.

É estranho que, tendo se recusado até agora a receber o único deputado federal do seu partido em audiência formal ou informal, o governador insinue, através dos seus apoiadores na imprensa, que Gervásio Maia foi o único parlamentar paraibano a não recebê-lo para discutir emendas parlamentares para o estado.

Por que então substituir uma audiência formal por uma visita não marcada ao gabinete parlamentar?

O timing para anunciar o rompimento

É claro que João Azevedo vem criando com essas atitudes desde que sentou na cadeira de governador, as condições para romper com Ricardo Coutinho, restando apenas definir o melhor timing.

Nesse ponto, o que parece cada vez mais óbvio para que o desfecho desse mal arranjado enredo finalmente se concretize, tem a ver agora mais com a narrativa de vitimização que João Azevedo tenta estabelecer, com a ajuda de seu exército na imprensa, do que com a decisão já tomada de sair do PSB.

Mas, não é necessário muito esforço interpretativo para reconhecer o óbvio: essa batalha João Azevedo também  já perdeu. No final de tudo isso, ele terá apenas  revelado à Paraíba o seu verdadeiro tamanho político.

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