04/11/2019 - 11h33

Caso do porteiro mostra que partidarismo avança no Ministério Público

Por Flávio Lúcio

A proximidade da família Bolsonaro com grupos de milicianos era por demais óbvia e a presença do ex-policial, Fabrício Queiroz, íntimo de grupos milicianos e influente assessor de Flávio Bolsonaro, reforçava ainda mais essa suspeita.

Fabrício Queiroz fazendo arminha ao lado do presidente

Depois que foi revelado que Élcio Queiroz, um dos assassinos de Marielle Franco, visitou o condomínio Vivendas da Barra no dia da execução da ex-vereadora do PSOL do Rio de Janeiro, e do seu motorista, Anderson Gomes, e, antes de entrar, disse na portaria que iria à casa do então deputado federal, Jair Bolsonaro, o que era apenas uma suspeita, ganha ares de verdade.

Marielle Franco e Anderson Gomes, foram executados em março de 2018, há um ano e sete meses, portanto. Nos dias que se seguiram aos assassinatos, tanto Jair Bolsonaro como seus filhos se recusaram a manifestar solidariedade aos familiares das duas vítimas.

Dias antes da eleição de 2018, apoiadores das candidaturas de Jair Bolsonaro a presidente, e de Wilson Witzel a governador, protagonizaram uma das cenas mais dantescas da campanha de 2018: em um comício na cidade Petrópolis do candidato a deputado estadual Rodrigo Amorim, com a presença de Witzel, foi rasgada uma placa de rua com o nome de Marielle Franco.

No vídeo abaixo, Daniel Silveira, candidato e deputado federal, e Rodrigo Amorim, a deputado estadual, arrancam a placa que homenageava simbolicamente Marielle Franco e depois levada para ser destruída em praça público, para o delírio da multidão bolsonarista presente no comício.

No vídeo abaixo, o atual governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, até então um desconhecido, foi eleito na reta final surfando a onda bolsonarista que, entre outras coisas, se desenvolveu propagando o ódio. No vídeo, Witzel defende, ao lado da placa de Marielle rasgada durante o comício, o juiz da Lava Jato do Rio de Janeiro, Marcelo Bretas, mostrando as relações políticas de proximidade entre a Lava Jato e a campanha bolsonarista no Rio de Janeiro.

TODOS CONTRA O PORTEIRO

Na última terça-feira, o Jornal Nacional tornou público, através de mais um vazamento ilegal, detalhes da investigação do caso Marielle Franco. Os dois principais suspeitos pelos assassinatos, o ex-policial militar, Élcio Queiroz, e o sargento aposentado da PM do Rio, Ronnie Lessa, se encontraram no condomínio Vivendas da Barra, onde mora o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos.

No entanto, segundo o o depoimento de um dos porteiros do condomínio à Polícia Civil do RJ, Élcio Queiroz disse na portaria do condomínio que iria à casa do então deputado federal Jair Bolsonaro.

A pressa da Globo em colocar no ar a reportagem deixou alguns flancos abertos e permitiu ser objeto de violenta reação do presidente, que estava na Arábia Saudita, acompanhada de uma série de movimentos que tentaram desqualificar o depoimento do porteiro, exclusivamente baseados na suposição de que Jair Bolsonaro não poderia ter atendido o telefone porque estava em Brasília no dia mencionado.

Da estratégia, fez parte, além do Procurador Geral da República recentemente empossado, Augusto Aras, que se adiantou às investigações e tratou o depoimento do porteiro como falso testemunho, justificando o arquivamento da investigação sobre a citação do nome do presidente Jair Bolsonaro nas investigações sobre a morte de Marielle Franco.

Antes, o Ministério Público do Rio de Janeiro havia convocado uma entrevista coletiva para dizer que o porteiro havia mentido. Uma das procuradoras que participou da entrevista coletiva, Carmem Eliza Bastos de Carvalho, é uma militante bolsonarista assumida.

Veja abaixo. Em 2018, Carmen vestiu a camisa de Jair Bolsonaro e a postagem emocionada em que ela celebrou a vitória do ex-capitão do Exército nas redes sociais. E essa mulher é Procuradora?

Notem o engajamento ideológico – procurador não tem de se assumir de direita ou de esquerda!

E não é só isso. Ela tem proximidade com o deputado estadual Rodrigo Amorim, um dos que protagonizaram a destruição da placa em homenagem a Marielle Franco.

O jornalista Luis Nassiff não precisou investigar muito para descobrir que:

  1. O condomínio abriu mão de interfones, por ser caro e por problemas de instalação. Optou-se por telefonar ou para o celular ou para o telefone fixo de cada proprietário.
  2. No caso de Bolsonaro, as ligações são para o próprio celular de Bolsonaro. E é ele quem atende. O que significa que a versão do porteiro não era descabida. Ou seja, o fato de estar em Brasilia não o impedia de atender o telefone.
  3. Carlos Bolsonaro, o Carluxo, também recebe os recados pelo celular. Em geral, fica pouco no condomínio, pois prefere permanece em seu apartamento na zona sul. Mas porteiros ouvidos por moradores sustentam que, naquele dia, ele estava no condomínio.
  4. O porteiro do depoimento está de férias. Mas moradores do condomínio foram, por conta própria, conversar com os demais porteiros. E eles garantiram que a ligação foi feita para Bolsonaro mesmo. (clique aqui para acessar a matéria do portal GGN)

Por que a pressa do Ministério Público em criminalizar o porteiro para tirar Bolsonaro da cena do crime, sem antes fazer uma simples investigação sobre detalhes conhecidos de todos os moradores do condomínio onde reside o presidente da República?

Eis demonstrado o partidarismo que tomou conta de nossas instituições. E se nossa democracia não for capaz de resistir e extirpar esse mal, logo nos veremos no pior dos mundos, porque estará consolidada a pior das ditaduras. 

Se fizer jornalismo, a Globo conseguirá ressuscitar a denúncia, por Luis Nassif

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