09/11/2019 - 13h23

Lula e o otimismo: porque o maior líder político do país está em liberdade

Por Flávio Lúcio

Três meses atrás (08 de agosto de 2019), publiquei aqui no blog um longo texto em que tentei demonstrar que a da libertação de Lula estava a caminho. O título é o seguinte: O fim da Lava Jato e a inevitável libertação de Lula: um novo pacto nacional é possível?

Eis um dos trechos desse artigo

“A mobilização [de deputados federais e senadores] de ontem no Congresso indica que Lula está próximo de sair de prisão. Se o processo que o condenou será anulado, como deveria, isso dependerá do amadurecimento do quadro atual de desmoralização da Lava Jato e do algoz de Lula, o ex-juiz Sérgio Moro, e do aprofundamento dessa movimento de retorno à normalidade institucional.

“A liberdade de Lula é condição primária para que o STF demonstre que seu norte é a lei e a defesa da Constituição é sua missão. O próximo passo será reunificação do país em bases mínimas que permitam interromper esse ciclo de destruição do país − institucional, política, econômica − iniciado pela Lava Jato. E isso só será possível depois da a anulação do processo que o levou Lula à prisão, além da restituição dos seus direitos políticos.”

Alguns amigos identificaram um excesso de otimismo no artigo. Outros chegaram mesmo a ironizar como panglossianas essa análise de conjuntura  (para quem não conhece, o termo provém de Pangloss, personagem de Cândido ou o otimismo, de Voltaire: Pangloss é o tutor do bom e bem intencionado Cândido, e ensina-lhe que esse mundo é o melhor dos mundo, apesar de todas as desgraças que se repetem por onde ele passa.

Pois bem, ontem, ao ver Lula finalmente livre, acenando para a multidão que o esperava fora da sede da PF, em Curitiba, onde a Lava Jato o encarcerou há quase dois anos, constatei que o otimismo da minha análise de três meses atrás, ia muito além de boas e ilusórias expectativas em nossas instituições, e se apoiavam muito mais numa leitura que percebe uma tendência de retorno, agora em novas bases, ao leito por onde as nossas classes proprietárias sempre conduziram pactuações políticas “por cima” em momentos-chave da história brasileira, isso desde a Independência.

Para evitar ir muito longe, em 1964, por exemplo, os arranjos do novo pacto que sucedeu o varguismo teve de ser feito a ferro e fogo, empurrando goela abaixo dos trabalhadores o novo modelo da modernização brasileira.

Entre 1985 e 1989, um novo pacto foi gestado, mas foi preciso a crise do governo Collor para que a alternativa neoliberal ganhasse unidade e forma ao longo dos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso.

As reformas liberalizantes no Estado e na economia avançaram entre 1995 e 2002, mas a posse de Lula, em 2003, interrompeu esse processo, não permitindo que esse ciclo de modernização neoliberal, iniciado por FHC, se completasse.

As expectativas do conservadorismo de que Lula promoveria uma ruptura com o modelo não se confirmaram, porque Lula moveu lentamente seu governo para a esquerda, enquanto acumulava forças políticas.

O erro de Lula foi não perceber que estava se tornado prisioneiro desse pacto. Em 2010, ao invés de consolidar uma aliança de centro-esquerda, tornou o PMDB o parceiro-chave para dar suporte parlamentar à continuidade de um ousado projeto econômico que produzia inevitavelmente injunções geopolíticas na América Latina e Caribe.

As vitórias de Dilma Rousseff em 2010 e, sobretudo, em 2014, representaram o fim das ilusões de que seria possível derrotar o lulismo nas urnas – se Dilma tivesse terminado o mandato, Lula seria obrigado a retornar à disputa presidencial para impedir a derrota desse projeto.

Foi esse esforço quase desesperado de alguns setores com notáveis vínculos com interesses externos, como a Rede Globo, de apear o PT do poder que ajudou criando uma nova unificação das classes proprietárias brasileiras, agora contra Lula e a “esquerda”, que permitiu os avanços de grupos de direita que atuavam por dentro da Justiça e do Ministério Público, principalmente, contra a Constituição e a ordem democrática.

A Lava Jato é o mais protuberante ovo que essa serpente colocou para chocar sob o calor do fascismo político e social, despertado pela cultura histórica de apartheid, cultivada ao longo de uma história de mais de três séculos de escravidão.

O problema é que o esforço de destruição moral da esquerda não atingiu só os partidos desses campo. Mesmo aos trancos e barrancos, a esquerda sobreviveu a 2018, sobretudo no Nordeste, a região mais impactada positivamente pelas políticas econômicas e sociais do lulism: 7 dos 9 governadores da região eleitos no ano passado pertencem a partidos desse campo, apesar dos namoricos de João Azevedo com Bolsoanro.

Fernando Haddad, o candidato a presidente do PT, obteve 45% dos votos, em um cenário de gigantescas dificuldades políticas. O PT elegeu a maior bancada da Câmara, com 54; o PSB elegeu 32, o PDT, 28, o PSOL, 10 e o PCdoB, 8, ou seja, mais de um quarto dos deputados eleitos.

Ao se incorporar a esse movimento, quem foi destroçada mesmo foi a direita tradicional, sobretudo o PSDB – que atua hoje no Congresso como força auxiliar do bolsonarismo. Os tucanos, que elegeram 54 deputados em 2014, perderam quase a metade das cadeiras em 2018, caindo para 32.

Já o insignificante PSL elegeu, em 2018, a segunda maior bancada da Câmara, com 52 deputados.

Ou seja, ao apostar na radicalização política contra o PT e endossar o golpe parlamentar e judiciário que depôs Dilma Rousseff, a centro-direita tradicional brasileira foi a mais impactada porque foi engolida pelo discurso de permanente beligerância do bolsonarismo, que se alimenta da divisão do país e dos brasileiros.

A questão que se apresenta ao país é a seguinte: o Brasil aguenta essa situação por mais quanto tempo?

A libertação de Lula parece indicar que a resposta está a caminho.

LULA LIVRE, E AGORA?

Esse texto continua em nova publicação a ser postada em breve.

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