10/11/2019 - 21h34

Depois de mais um golpe, Bolivia vai viver seu interregno neoliberal

Por Flávio Lúcio

Com o golpe civil-militar de 1964 no Brasil, uma sucessão de golpes derrubou governos de esquerda em quase toda a América Latina – a Venezuela foi, com sua sólida democracia, uma rara exceção.

Como se comprovou depois, a presença americana foi mão invisível que articulou cada um daqueles movimentos golpistas.

Cinco décadas depois, a América Latina volta a viver o mesmo pesadelo. Uma nova sucessão de golpes contra governos de esquerda volta a acontecer.

A característica mais marcante deles, entretanto, não é mais a presença ostensiva da força militar, mas subversão da ordem democrática e constitucional por dentro das instituições. E mais uma vez, como haveremos de comprovar documentalmente no futuro, as digitais do Departamento de Estado americano serão encontradas em cada um deles.

E não adiantou, como a experiência venezuelana e agora boliviana comprovam, a proteção institucional contra esses movimentos golpistas.

A OEA foi o principal agente desestabilizador na Bolívia. Uma instituição diplomática, comandada pelos Estados Unidos, ajudou a deslegitimar e a dar combustível às movimentações golpistas na Bolívia, o que nos ajuda na compreensão da importância geopolítica do Brasil para a estabilidade democrática da região.

A atuação da OEA na crise da Venezuela, e agora na boliviana, seria improvável durante os governos petistas.

Evo Morales, um passo atrás…

O recuo estratégico de Evo Morales e do Movimento ao Socialismo (MAS), com a renúncia diante da violência que tomou conta da Bolívia e atingiu até familiares de dirigentes, sobretudo indígenas, permitirá o acúmulo de forças, mesmo com uma provável derrota eleitoral, se é que novas eleições serão convocadas, com o determina a Constituição boliviana.

A reversão do quadro na Argentina, depois do desastre econômico que o neoliberalismo de Macri impôs ao país, as rebeliões populares e antineoliberaia no Chile e no Equador, a falta de perspectivas de retomada do crescimento econômico no Brasil, associado a um quadro de perda de direitos sociais e da reconcentração da renda, depois de anos de melhoria das condições de vida, principalmente dos mais pobres, indicam que a hegemonia do bolsonarismo, assim como aconteceu com o macrismo na Argentina, será também breve.

Os anos em que Evo Morales presidiu a Bolívia também produziram sensíveis impactos positivos no desenvolvimento econômico e social do país – em 2019, segundo dados da CEPAL, a economia da Bolívia deverá crescer 4,5%.

A receita de Carlos Mesa, o candidato direitista derrotado, tem o mesmo conteúdo, a mesma agenda entreguista, a mesma lógica anti-social, o mesmo alinhamento aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos para a América Latina, e é a mesma de Macri e Bolsonaro, ou seja, tende a trazer de volta a miséria para o povo e a marginalização dos indígenas.

A Bolívia vai provavelmente viver nos proximos anos seu interregno neoliberal. Se o custo econômico e social será alto, o aprendizado para o povo será decisivo para iimpedir que novos retrocessos voltem a acontecer no futuro.

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