10/11/2019 - 14h19

Entrevista de RC a Luís Nassif: Os desafios da democracia contemporânea

Por Flávio Lúcio

O ex-governador Ricardo Coutinho concedeu ontem uma consistente entrevista ao jornalista Luís Nassif.

Nassif abriu a entrevista interessado em saber sobre a recente visita que Coutinho fez a instituições de pesquisas e a lideranças políticas europeias, e como os europeus estão acompanhando os recentes acontecimentos políticos, sobretudo o impacto da libertação de Lula.

Ricardo aproveitou o gancho para falar dos dilemas das forças progressistas europeias diante dos desafios ensejados pela integração europeia e pela chamada globalização financeira.

Segundo Ricardo Coutinho, o avanço da Globalização e da financeirização é o principal problema para a gestação de alternativas das forças progressistas do Velho Continente, diante do poderio do sistema financeiro: “O controle do rentismo sobre os antigos Estados-nação é tão forte que eu não encontrei ninguém com a clareza sobre que caminhos por onde seguir para poder superar e afirmar uma alternativa palpável, concreta nesse momento, e de uma transição para um outro tipo de sistema”.

Ricardo Coutinho dá ênfase aos problemas causados pela financeirização, onde o rentismo que oferece ganhos mais atrativos do que os investimentos na produção, que gera emprego, renda e riqueza. RC lembra que o papel dos bancos na economia capitalista moderna é financiar a produção, mas uma mudança gradativa ao longos das últimas décadas tornou mais atrativos para quem tem dinheiro o investimento rentista, a compra de títulos públicos, o negócio nas bolsas, a especulação financeira.

“Esse é o grande dilema, o grande choque entre o mundo capitalista anterior e esse novo mundo capitalista pós-globalização”.

Nassif perguntou se na Europa a imprensa tem esse mesmo papel, como acontece aqui no Brasil, de vender como única saída para o país a ideia de que a redução do Estado, a panaceia apregoada pelos economistas que defendem os interesses do sistema financeiro, é a solução dos problemas europeus.

“Na Europa não é possível fazer comunicação como se faz no Brasil”, respondeu Ricardo, lembrando em seguida que aqui seis famílias controlam as grandes redes e meios de comunicação do país, e mais da metade das rádios, direta ou indiretamente, estão nas mãos de um grupo de deputados e senadores.

“Você não pode ter a imprensa de comportando [como aqui no Brasil] da forma como a imprensa se comportou ao longo desses anos. Na Europa, ao colocar uma posição política, eles têm de abrir espaço para o outro lado. Não é permitido fazer uma espécie da caça às bruxas, como acontece no Brasil, de condenação prévia na opinião pública.”

Para Ricardo Coutinho, a solução para esses problemas está no aprofundamento da democracia e na recuperação de teses mais generosas no interior da concepção democrática. “Essa democracia que estamos alimentando e construindo, ela é insuficiente para os tempos atuais. Você alterna os partidos no poder, mas não alterna os sistemas”. Ricardo conclui que essa “democracia se exauriu” e que é preciso recriá-la em outras bases: “democracia na economia, democracia partidária, democracia nas políticas sociais,” disse ele.

Nesse ponto, RC lança então um desafio à intelectualidade: “É preciso que a intelectualidade se volte para isso, para que esteja, inclusive, à altura de ser chamada de intelectualidade.

Comentários